Araras, 23 de outubro de 2017

“Para mim, parece impossível imaginar o futuro para reimaginar o presente”. (Juan Manuel Barrionuevo)   Ao dar-me conta de que, pensando bem, continuamos indo...
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“Para mim, parece impossível imaginar o futuro para reimaginar

o presente”. (Juan Manuel Barrionuevo)

 

Ao dar-me conta de que, pensando bem, continuamos indo mal, resolvi fazer uma modesta aplicação em ações preferenciais de recordações.

O metafórico investimento, cuja concretização deve ser creditada na exorbitância de habilidades do fantasioso corretor da Bolsa de Mercado Passado, imediatamente rendeu dividendos. Na lógica da contabilidade psicológica, um saldo positivo que veio engordar minhas economias em lembranças.

Então lembrei-me de uma ave que já teve seus dias de nobreza, o frango. Sim, durante seu reinado, o frango foi um fidalgo que honrou a dinastia dos bichos de pena da linhagem Pullus Gallinaceus.

Em tempos idos e vividos, os polastros dificilmente aterrissavam nas mesas da brava gente brasileira. Um pouso de frango empratado na casa do povão era algo absolutamente incerto.

Tão incerto que Barão de Itararé, alter ego de um gênio chamado Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly, cunhou uma hilariante frase para condensar quão difícil era um franguinho figurar nos cardápios pés-sem-pano:

“Quando pobre come frango, um dos dois está doente”.

Na época em que o hilariante descortínio foi lançado pelo Barão, a carne bovina sequer fazia sombra à aristocracia galinácea. Tanto assim que a expressão “carne de vaca”, então largamente utilizada, significava, como de resto significa até hoje, coisa comum, que se encontra em qualquer lugar.

O frango era um ator que, além de cobrar cachê caro, era bastante temperamental; nesse sentido, só se apresentava aos domingos para interpretar papéis nos quais a presença do macarrão da mamma ou da clássica polenta aprendida com os imigrantes, dois de seus principais coadjuvantes, eram devorados pelos olhos devoradores das pessoas.

Em suas impontuais e caras atuações domésticas, o frango apresentava-se num figurino sob a medida exigida pelo roteiro.

Seus perfumados guarda-roupas resistiram ao tempo e hoje integram o inconsciente coletivo: ensopado, assado e frito, roupagem costurado em casa, ou nos leilões de quermesse, ou nas rifas de bar.

Legiões de fãs desse intrigante personagem nunca se livraram de uma mania que, sob determinadas condições de local, tempo e temperatura é uma verdadeira tortura. Refiro-me a uma preferência estranha, quando não anacrônica, por determinadas partes de seu esqueleto.

Quem entre vós, crianças, nunca disputou à mesa com o irmão/ irmã as asas do empenado bicho? Quem não advertiu, ainda que timidamente, “a moela é minha”, no instante em que a travessa com carnes brancas fumegantes era posta sobre mesa?

“Deixa um pé pra mim” e “eu dispenso a coxa, gosto da sobrecoxa” eram maneiras diretas e indiretas de pegar a coroa antes que um aventureiro — geralmente uma visita — passasse a mão nela.

Por acaso o leitor comilão e a gourmand leitora já não discutiram pela posse do “jogador”, aquele osso localizado no peito do frango com o qual duas pessoas veem qual delas tem mais sorte?

De minha parte, não dispenso, a nenhum título, os miúdos de um frango feito na panela. Coração, fígado, moela, pés, e, incrível, a cabeça, são itens irremovíveis de minha memória gustativa.

O mundo girou, a Luzitana rodou, o frango virou carne de vaca e o alpinismo econômico catapultou a carne de vaca ao mundo dos neologismos engana-trouxa, de modo que nos dias existe até butique de carne. Carne bovina, é claro.

Então, e vai daí, açougues hoje não vendem mais ponta de alcatra, mas maminha; carne de porco? Carne suína, que o porco também ascendeu na escala social da zoologia.

Coitado do frango. Picado, congelado, destronado, travestido pelos chefs. Os chefs, subchefes, metidos a chef em geral e demais desconsiderados não perpetram frango de panela, e sim galinhada. Coitado do frango, virou galinha.

O frango, enfim, me foi revelado por uma aplicação na Bolsa de Mercado Passado. Jamais investiria em Mercado Futuro, pois para mim parece impossível imaginar o futuro para reimaginar o presente.

Bom dia!

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Milton Triano