Araras, 24 de abril de 2017

“Querer que a vida humana seja sempre dirigida pela razão é destruir, por esse fato, a própria razão”. (Leon Tolstoi)   Oscar Wilde, o...

“Querer que a vida humana seja sempre dirigida pela razão

é destruir, por esse fato, a própria razão”. (Leon Tolstoi)

 

Oscar Wilde, o fauno que cercou o jogo da vida marcando um triplo no volante do destino — nasceu na Irlanda, viveu em Londres, e defuntou em Paris — disse “que neste mundo há apenas duas tragédias: uma, a de não satisfazermos os nossos desejos; a outra é a de os satisfazermos”.

Essa segunda possibilidade, ou seja, amargar a tragédia via satisfação de um desejo, custa a exorbitância da purgação de uma dor contra a qual não existe remédio: o arrependimento. O arrependimento, quem o experimentou bem o sabe, queima mais que qualquer forno do quinto dos infernos.

Ocorre que em incontáveis ocasiões satisfazemos nossos desejos estribados na falta de bom senso. No entanto, ninguém deve se imolar por isso; querer que a vida humana seja sempre dirigida pela razão é destruir, por esse fato, a própria razão.

Quando ouço alguém dizer que não se arrepende de nada do que fez na vida, minha pulga amestrada pula para trás de minha orelha. Acho muito difícil que alguém tenha atravessado o jângal da vida sem ter realizado algo pela manhã de que não tivesse se arrependido à tarde.

Existe uma enormidade de exemplos de desejos satisfeitos que viraram contrariedade. É só puxar pelo rabo da memória para que ela responda com meia dúzia de casos concretos. Puxo a fila dos incautos; já provei inúmeras vezes do amargor dessa penitência, mas nada a reclamar.

Pois bem. Eu me deliciava com as peripécias dos jovens concorrentes do MasterChef Brasil 2017, quando o telefone tocou. Do outro lado da linha, uma voz de travesseiro, familiar aos meus ouvidos: “Acordei você?”. “Fala meu amor. Como tá tu?”, respondi.

Vejam como são as coisas. O zoocacófato tá tu foi a senha que abriu uma gostosa conversa com Diva Agar velha, minha considerada amiga desde os tempos da brilhantina Glostora e do Pó de Arroz Lady. Tempus fugit, Nestor.

Depois das saudações de praxe e das perguntas de estilo, que como todos sabem desejam notícias da família até a terceira geração, dos bichos de estimação e eventuais agregados, ela foi direto ao assunto.

“Passei um tempão desejando fazer uma tatuagem. Três anos ou quatro anos atrás mandei tatuar o nome do Josué no braço esquerdo e um tucano no ombro direito. O Jô era tucano roxo, fanático. Oito meses depois ele enfartou e morreu.

No começo do ano passado comecei a namorar o Louzada, aquele gerente das Casas Pernambucanas, lembra-se dele?

Adivinhe o que aconteceu. Outro dia ele deu o xeque-mate: ‘ou você tira o nome do seu finado marido e esse maldito tucano do braço, ou eu me mando’.

Se arrependimento matasse… Eu deveria ter caído dura no chão quando coloquei os pés naquele maldito estúdio”.

A reação do Louzada tem lá sua razão de ser.

Como tão irrecusável quão inquestionável nacionalista que é, realmente não seria nesta altura da vida que ele se daria ao desprazer de, no clímax de uma lição de amor com Diva Agar, acarinhar o tucano, símbolo do entreguismo sem disfarces, desbragado e inconsequente.

“Daqui a vinte anos”, escreveu H. Jackson Brown Jr., “você estará mais arrependido pelas coisas que não fez do que pelas que fez.

Então solte suas amarras. Afaste-se do porto seguro. Agarre o vento em suas velas. Explore. Sonhe. Descubra”.

Bom dia!

Milton Triano

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