Araras, 22 de julho de 2018

  “Olhando de perto, um sonho não é uma coisa sem perigo. É como uma pistola de dois gatilhos. Se vive muito tempo acaba...
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“Olhando de perto, um sonho não é
uma coisa sem perigo. É como uma
pistola de dois gatilhos. Se vive muito
tempo acaba por ferir alguém”.
William Faulkner

“Me dá o último Pasquim”. O dono da banca: “O Pasquim acabou. Vendi o último faz cinco minutos”.

Este diálogo improvável desde 1991, ano em que o fantástico hebdomadário deixou de circular entre os tupinambás, acontece em meus sonhos com intrigante frequência.

Os cenários — bancas de jornal e cidades onde elas estão instaladas — evidentemente mudam, mas minha decepção é idêntica nos sonhos que se repetem como um folhetim inacabado.

Deduções psicanalíticas acondicionadas em formas de assar bolo diriam que, na verdade, a busca pelo jornal representaria um desejo não satisfeito. Como o destino que me foi servido nesta vida seguramente está juncado de incontáveis aspirações não realizadas, fico sem saber o que é que O Pasquim tem a ver com minhas frustrações.

A questão, vê-se, é descobrir que raio de desejo é esse que se vale do jornal alternativo que tirou as cataratas de uma geração que perdia tempo, gastava saliva e nunca chegou a lugar algum discutindo Sartre, Martin Heidegger, Herbert Marcuse e outros gurus que desfilavam na feira de amenidades dos emblemáticos anos 1960.

William Faulkner tem uma frase que, para desespero daqueles que sugerem produtos para limpar a fedegosa fossa que os humanos têm dentro da caixa craniana, resume calhamaços de teses acadêmicas:

“Olhando de perto, um sonho não é uma coisa sem perigo. É como uma pistola de dois gatilhos. Se vive muito tempo acaba por ferir alguém”.

Se não sonhássemos, dizem os doutores da matéria, seria um desastre; de outra banda, o oposto, ou seja, o ato de sonhar, tem rendido alguns trocados para Humanidade.

O escritor e diplomata russo Aleksandr Griboiédov inicia o saldo positivo da contabilidade onírica. Ele estava na Pérsia quando sonhou com passagens de A Desgraça de Ser Inteligente, sua obra prima.

Seu compatriota Nicolai Rimski-Kórsakov contou que compôs A Donzela da Neve a partir de um sonho que teve. “As melodias vieram a mim durante o sono”, disse ele.

Já Dmitri Mendeleiv disse que ordenou os elementos em sua Tabela Periódica depois de interromper um sonho: “Sonhei com a tabela em que os elementos estavam ordenados corretamente. Acordei, coloquei no papel e voltei a dormir”.

Desconfio que esses sonhos generosos foram instigados por generosos goles de vodca, boas colheradas de solyanka, tudo devidamente arrematado com blinis recheados com geleia.

Alguns sonhos desafiam a Psiquiatria. É o caso do sapateiro Gaeta. De uma noite para outra passou a sonhar que era uma espiga de milho.

E toda vez que assim sonhava, acorda em pânico, suando como um lutador de sumô. Durante o pesadelo, uma voz em off of record zurrava sem parrar: “Pamonhas, pamonhas, pamonhas. Pamonhas de Piracicaba”.

O tormento durou anos sem fim, e só terminou no dia em que o pobre homem colocou a cabeça dentro de um debulhador de milho e acionou o interruptor.

Segundo a revista Galileu, o professor americano Eric Schumacher afirmou que sonhar acordado é sinal de mais inteligência e criatividade. Acredito que se ele morasse no Brasil, sua provável pesquisa não teria chegado a tão estimulante conclusão.

Porque faz séculos que o brasileiro sonha acordado com uma sociedade mais justa, com um país soberano, com governantes sérios, realmente preocupados com nosso perverso destino. Enfim, faz tempo, e põe tempo nisso, que o brasileiro tem sonhado que amanhã será de fato um novo dia.

Esse tempo, porém, nunca chega e, pelo visto, jamais chegará. Vale dizer, só sonhar não nos tem feito mais inteligentes e criativos, senão mais manipulados, mais oprimidos.

Aqui, mister Schumacher, sonhar acordado é terrível.

Bom dia!

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Milton Triano

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