Araras, 20 de outubro de 2017

“Eu vou ser tão breve que na verdade já terminei”. (Salvador Dali)   Hoje eu vou ser tão breve que na verdade já terminei....
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“Eu vou ser tão breve que na verdade já terminei”. (Salvador Dali)

 

Hoje eu vou ser tão breve que na verdade já terminei. O ar seco de deserto e as notícias de última hora vindas da capital federal não deixam mal apenas nossas indefesas mucosas, fazem arder meus miolos e tudo mais que desse velho corpo consta.

Sirvo-me de uma caneca dupla de chá de insistência e eis que senão quando, o surreal do Surrealismo convida-me meditar sobre duas flácidas penas de prisão perpétua impostas ao homem: desejo e bigode.

Como diria aquele mesoclítico pseudopresidente, falar-lhes-ei então sobre essa dupla que, convenhamos, aparentemente não forma par.

A exumação de Salvador Dali, o maluco beleza da pintura surrealista, revelou ao mundo que, mesmo passados 28 anos de seu defuntamento, seu famoso bigode fino e pontudo não só está intacto, como se posiciona na clássica postura “dez horas e dez minutos”, conforme seu desejo antes de bater as botas.

É voz corrente que a intrigante lanugem daliana esculpida meticulosa e diariamente com uma cera especial, era uma homenagem ao mestre do naturalismo barroco, o também espanhol Diego Velázquez.

Lendas à parte, o fato é que o chumaço surreal de pelos, excentricidade cultuada como religião pelo irreverente catalão, tornou-se sua marca registrada e acabou virando livro. Escrito por ele mesmo.

Embora, e por suposto, eu não seja expert em pilosidades, ouso afirmar que o bigode de Dali estava mais para o fleumático mustache que sir Claude Maxwell Macdonald exibia nos saraus diplomáticos — calculo que, de ponta a ponta, o arame de Macdonald media uns 20 centímetros —, do que para aquele que o sevilhano Velázquez autorretratou com perfeição.

De vez em quando aparecem na praça bigodes que acabam virando verdadeiras assinaturas na carteira de identidade de seus portadores.

Na música, o bigode Chevron do imortal Fred Mercury, assim como o escovão de piaçava que o cantor mexicano Bienvenido Granda ostentava, facilitaram as coisas para os caricaturistas. Idem para o filosófico bigode de Morsa do pensador alemão Frederik Nietzsche.

Já no cinema, o bigodinho do ator americano Clark Gable é um caso à parte, visto que ainda não foi devidamente estudado pela ciência. Seu adereço facial possuía uma propriedade singular, posto que encontradiça apenas em determinados organismos vivos, qual seja, o mimetismo.

No filme E o Vento Levou, o bigode de Rhett Butle, canastrão interpretado por Gable, impregna-lhe o physique du role de quem vive profissionalmente de jogo. Como se diz no popular, está na cara que Rhett vê a vida como se ela fosse um grande cassino onde se joga absolutamente tudo.

Em Mogambo, raspem o bigode de Victor Marswell e ele perderá a cara de caçador que organizou um safari no Quênia. Se minha memória não falha e minha vista não piscou, Clark Gable foi Clark Gable neste filme, uma vez que filmou de cara limpíssima. Em todos os sentidos.

O desejo de Salvador Dali — deixar o bigode nos trinques sob o peso de sete palmos de terra — tem a ver com o desejo que o homem nutre desde o instante que toma consciência de sua efemeridade: ficar pra semente.

No caso de Dali, sobra a seguinte impressão: para ele, pouco importava o fato de sua obra ter ganhado foros de perenidade; ele encarnou com tanto entusiasmo a Persona escolhida que, a partir de determinado ato, personagem e ator fundiram-se para dar vida a uma representação de carne e osso, e perpetuar essa representação acabou virando desejo.  

E nesse desejo, o performático bigode foi apenas um detalhe a mais.

Bom dia!

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Milton Triano