Um encontro descontraído e intimista, permeado pelo bom humor, pela simpatia e simplicidade de um dos mais respeitados repórteres televisivos da atualidade. Assim foi a palestra do jornalista Raul Dias Filho, da TV Record, na noite da última quinta-feira, no Centro Cultural Leny de Oliveira Zurita. O evento integrou a programação de festejos pelos 120 anos da Tribuna do Povo.
Mais de cem pessoas – convidados e assinantes do jornal compareceram e acompanharam atentamente as histórias do profissional, que é repórter especial do programa Domingo Espetacular e chegou ao local da palestra acompanhado da mulher, Ana Luísa e dos filhos Pedro, de 4 anos e Felipe, de apenas oito meses. A família acompanhou toda a apresentação de Raul.
Ele começou a carreira em 1989 no sul de Minas Gerais, mais precisamente na EPTV de Varginha/MG. Destacou-se e foi para a EPTV Campinas, onde atuou na área esportiva e como editor chefe do jornal regional da emissora. Foi, ainda, repórter do programa Terra da Gente por quase sete anos. “Era um emprego invejável. Eu literalmente ganhava para pescar”, brincou, referindo-se às longas reportagens sobre pesca esportiva e riquezas naturais do Brasil e da América do Sul.
Inexperiência a favor
Relatando os desafios do jornalismo no interior e, como ele frisou, os desafios “de um jornalista interiorano” como ele, Raul arrancou muitos risos da plateia ao relembrar um de seus momentos mais marcantes do início da carreira em Minas, quando foi entrevistar o cantor e compositor Caetano Veloso, que se apresentava em Itajubá. “Lá fui eu, repórter inexperiente, entrevistar aquele que também era meu ídolo. Eu era um jornalista, mas também um fã do Caetano”, disse. “Quando o cinegrafista mandou ‘bater um branco’ na câmera, que era focalizar uma superfície branca para equalizar a luz, quem teve um branco fui eu. Simplesmente olhava para o Caetano e não conseguia pensar numa pergunta inteligente para fazer a ele. Acabei perguntando só bobagens do tipo ‘o que você acha de cantar em Minas? Por que não vem mais vezes?’. E o Caetano com toda paciência, dando aquelas respostas longas. Achei que aquilo não seria aproveitado na emissora, mas acabou sendo e também foi repassado para São Paulo e para o Rio de Janeiro. Foi exibido no Jornal Hoje e só então eu soube que aquela era a primeira entrevista que o Caetano dava para a Globo em cinco anos. Foi um mero acaso, que eu nem imaginava, que fez com que uma das minhas primeiras matérias, que tinham sido ruins a meu ver, tivesse destaque nacional”, relembrou.
A queda do avião da Gol
O repórter exibiu alguns vídeos com trechos de matérias que realizou no Domingo Espetacular. Entre elas, a da chegada, por terra, como primeiro profissional de imprensa televisiva, ao local onde caiu o avião da Gol, no norte do Mato Grosso, quase divisa com o Pará, em 2006, quando 154 pessoas morreram. Ele contou os desafios para conseguir informações e chegar ao local, o que só conseguiu com ajuda de índios da região. “Os índios caiapó estavam entre os que me ajudaram muito, porque havia restrição para chegar ao local. Com ajuda deles, pude me embrenhar na floresta e captar aquelas imagens que, para mim, davam outra dimensão da tragédia”, explica.
Raul disse que ao ver os helicópteros da FAB (Força Aérea Brasileira) trazerem da selva aqueles grandes sacos pretos com corpos eu me toquei. Ali dentro, naqueles sacos, não eram só corpos que eram trazidos. Eram sonhos, planos, histórias de pessoas. Foi o que me motivou a mostrar esse lado mais humano que eu acho dever também do jornalismo mostrar”, afirmou.
O jornalista contou que a imensa repercussão da matéria sobre a tragédia do vôo 1907 da Gol abriu portas e fez com que ele ganhasse espaço na TV Record. “Depois disso eu passei a ser destacado para fazer reportagens especiais no exterior, colaborando para consolidar ainda mais o jornalismo na emissora”, disse ele, que mostrou também alguns trechos e falou de bastidores de reportagem sobre auto flagelações na celebração da Paixão de Cristo nas Filipinas e, ainda, sobre matéria a respeito da exploração do trabalho infantil em Bangladesh. “Essas reportagens nos ajudam a refletir também sobre situações de sofrimento que ocorram mais perto de nós”, argumentou.
Sobre a Tribuna
Raul falou com entusiasmo sobre os tempos em que vinha a Araras com frequencia para cobrir jogos e o desempenho do União São João e discorreu sobre a Tribuna do Povo nos seus 120 anos. “Eu acredito que só com ética e credibilidade se chega a uma marca dessas. Acredito também que a Tribuna seja a memória de Araras, já que foi fundada quando a cidade tinha só 30 anos. É, também, um veículo que ajuda a própria imprensa local e regional a se desenvolver. Vejo esse convite para estar aqui como uma honra”, concluiu.
Depois da palestra, o profissional abriu espaço para perguntas, interagiu com o público e tirou fotos com fãs. A palestra de Raul também integra os festejos de 150anos de fundação de Araras. Já as comemorações dos 120 anos da Tribuna encerram-se amanhã com concerto da Orquestra Jazz Sinfônica de São João da Boa Vista, 20h, na Praça Barão de Araras.
(Ana Maria Devides)
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