Araras, 21 de outubro de 2018

“Quando vou entregar currículo, sempre dizem que vão me chamar e o telefone nunca toca. Parece que nós temos que fingir ser o que... Preconceito dificulta ingresso de transexuais no mercado
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“Quando vou entregar currículo, sempre dizem que vão me chamar e o telefone nunca toca. Parece que nós temos que fingir ser o que não somos para conseguirmos emprego”, desabafa Leonardo Eduardo Gomes Montaute, 19 anos.

Para ele, o fato de ser alguém fora dos padrões considerados “tradicionais” pela sociedade torna a busca mais difícil. Léo se assumiu como homem transexual e diz que, desde então, sente diferenças na forma com que é tratado na hora de procurar emprego.

“Sei que o mercado de trabalho é complicado e competitivo, mas sinto diferença entre a maneira como me tratam agora em que me assumi do que quando, para todos, eu era “a menina perfeita.” Não sei o que pensam de mim exatamente, mas gostaria que as portas fossem abertas como antes. Antes de tudo, sou um ser humano e essa diferença machuca muito”, completa.

Leonardo Montaute diz que passou a ser tratado de forma diferente na hora de procurar emprego, após se assumir como homem transexual
Foto: Cristiano Leite/Tribuna

O preconceito e a discriminação, ainda comuns na rotina da comunidade LGBT (Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros), refletem também no mercado de trabalho. Não há dados oficiais no Brasil sobre a taxa de emprego entre essa população, mas ONGs e entidades ligadas ao setor estimam que a maioria está fora do mercado formal de trabalho.

De acordo com dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), apenas 10% deles trabalham com registro em carteira. 90% acaba se prostituindo em alguma fase da vida, muitas vezes, por falta de outras oportunidades.

Levantamentos da RedeTrans (Rede Nacional de Pessoas Trans do Brasil) apontam que 82% das mulheres transexuais e travestis abandonam o ensino médio entre os 14 e os 18 anos por causa de discriminação na escola e falta de apoio familiar.

Os números não parecem ser muito diferentes em Araras. “Acreditamos que a realidade seja próxima disso aqui também”, avalia Ana Carla Tozzo, coordenadora geral da ONG Somos.

Fundada em 2007, a entidade promove ações para combater o preconceito e a marginalização, além de buscar igualdade de direitos para a comunidade LGBT da cidade. Reformulada no ano passado, a ONG vem recadastrando pessoas no município para desenvolver estratégias especialmente voltadas ao combate destes problemas em ambientes como o de trabalho e o escolar.

“Notamos como é crescente a necessidade de apoio às pessoas trans que acabam, na maioria das vezes, não sendo contratadas pelas empresas por preconceito com relação aos seus gêneros. Sabemos que a taxa de desemprego está alta no país de modo geral, porém vemos que as oportunidades são mais restritas ainda para quem faz parte da comunidade LGBT”, comenta Carla.

Entre os integrantes da ONG, segundo ela, há relatos de pessoas que foram demitidas por questões relacionadas ao gênero e também à opção sexual. “Acompanhamos estes casos e estamos levantando dados para projetos futuros, visando a qualificação profissional e o encaminhamento ao mercado de trabalho de travestis e transexuais”, revela.

No Brasil, há alguns sites especializados em cadastrar currículos de pessoas transexuais e divulgar vagas em empresas que tenham políticas voltadas ao respeito à diversidade na hora da contratação de funcionários. Entre os mais tradicionais está o Transemprego (www.transemprego.com.br), que existe há 5 anos, e o Rede Monalisa (www.redemonalisa.com.br).

Entenda os termos LGBTs*

Gênero

Classificação pessoal e social das pessoas como homens ou mulheres. Orienta papéis e expressões de gênero, e independe do sexo.

Sexo

Classificação biológica das pessoas, baseada em características orgânicas como cromossomos, níveis hormonais, órgãos reprodutivos e genitais.

Orientação sexual

Atração afetivossexual por alguém. Relacionada diretamente à preferência em relação ao outro e diferente do senso pessoal de pertencer a algum gênero.

Identidade de gênero

É o gênero com o qual a pessoa se identifica, como se reconhece a si mesma, independentemente do órgão sexual biológico.

Cisgênero

Pessoas que se identificam com o gênero que lhes foi determinado ao nascer.

Transexual/ transgênero

Pessoas que não se identificam com o gênero que lhes foi atribuído ao nascer. Mulheres trans são aquelas que foram designadas como homens, mas se reconhecem como mulheres; homens trans foram designados mulheres ao nascer, mas se reconhecem como homens.

Travesti

Pessoa que vivencia papéis de gênero feminino, mas não se reconhece como homem ou mulher, entendendo-se como integrante de um terceiro gênero ou de um não-gênero.

*Fonte: Orientações sobre identidade de gêneros: conceitos e termos (disponível em http://www.diversidadesexual.com.br)

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Renata Meneghin

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