Araras, 24 de julho de 2017

“Eu acho que não há inteligência sem coração. A inteligência é um dom, mas o coração tem que suportar humildemente, senão é perfeitamente voltado...
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“Eu acho que não há inteligência sem coração. A inteligência é um dom, mas o coração tem que suportar humildemente, senão é perfeitamente voltado às trevas”. (Agustina Bessa-Luís)

 

Estava eu batendo um bumbo para o meu preto velho quando ele comunicou algo que eu desconfiava com uma remota réstia de certeza.

— Zinfio, mundo véio ficô véio dimais. Vai acabá logo. Repara qui us home qui manda im suncêis veve de demanda braba i só qué chuchá no povo. O mundo cabô, Zinfio.

Fiquei arrepiado da cabeça aos pés. Primeiro o dilúvio. A contrário do fogo anunciado pelos bruxos ao correr dos séculos, quem vai sepultar nossa vã teimosia será o mau-caratismo, doença da alma que não se cura com água e sabão.  

Portanto, que ninguém espere pela loucura estampada em códigos no Apocalipse. Descartem cavaleiros desastrosos, feras de dez chifres e sete cabeças, selos, trombetas, tigelas e o batalhão de bichos calamitosos. Desculpe, João.

Os sinais que abrem nossos cansados miolos para esse entendimento são perfeitamente detectáveis. Como gostam de poetar os advogados nos argumentos que costuram nos tribunais, são de uma “clareza solar”.

Desgraçadamente, a narcoléptica contemplação das iniquidades sobrepôs-se ao dever moral de combatê-las. Resultado: a morte do tecido social, causado pela omissão galopante, é irreversível.

Ouço falar, pelo século dos séculos, que necessitamos de reformas. A política e a tributária são campeãs no ranking do blábláblá dos saca-trapos encastelados no Congresso.

Para um país cuja Constituição compete em remendos com uma colcha patchwork tipo king size, as receitas postas à mesa pelos idiotas da objetividade — obrigado pela cessão, Nelson Rodrigues — evidentemente sempre causam indigestão. Obviamente que na classe trabalhadora. Indigestão principalmente naqueles que “vão em frente sem nem ter com quem contar”.

A investida dos saca-trapos de libré preocupa? Preocupa. Porém, existe algo muito, mas muito mais preocupante do que a rasteira dos tais.

Trata-se do dar de ombros à liturgia exigida pelo cargo por parte de alguns homens públicos encarregados de apontar ou de julgar as pisadas na bola que seus semelhantes eventualmente dão aqui e ali. E acolá também.

Certos capas-pretas, alguns deles acusadores, outros tantos julgadores, têm uma idéia exorbitantemente particular de Justiça. E do que seja distribuí-la de maneira imparcial e isenta das paixões humanas, todas elas sabidamente insensíveis a para-raios psicológicos.

É ministro do Supremo que bate-boca com Procurador Geral da República, é promotor federal que porque se inflama leva a multidão a conclusões natimortas, é juiz que fala fora do processo. Enfim, é, como diria J.Toledo, o baralho a quatro.

Os cargos que integram as instâncias pelas quais transitam os apelos de quem busca lhe seja dado aquilo que é seu, têm uma liturgia que, sob pena de desmoralização do Poder Judiciário, tem de ser obedecida.

Dos filósofos gregos, passando pela multidão de juristas e demais palpiteiros acadêmicos, o homem gastou toneladas de papel e milhões de litros de saliva procurando definir o que é Justiça. Tanto murro em ponta de faca para quê?

Justiça, crianças, pode ser tudo, menos isso que estamos assistindo via Embratel ou pelo Youtube. A busca do ideal de justiça passa anos-luz da audiência em que o ex-presidente Lula foi interrogado quarta-feira 10.

“Eu acho”, disse a escritora portuguesa Agustina Bessa-Luís, “que não há inteligência sem coração. A inteligência é um dom, é-nos concedida, mas o coração tem que suportar humildemente, senão é perfeitamente voltado às trevas”.

Sempre imaginei que dessa vez o mundo ia acabar em uma defesa de tese, mas pelo jeito que as coisas estão caminhando, acabará mesmo pela ação do achismo dos idiotas da objetividade.

Bom dia!

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Milton Triano