Araras, 19 de setembro de 2017

“Navego pela memória sem margens”. (Cecília Meireles)   O inventor da pamonha merece uma estátua em praça pública. No quesito “reconhecimento”, continuamos a dever...
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“Navego pela memória sem margens”. (Cecília Meireles)

 

O inventor da pamonha merece uma estátua em praça pública. No quesito “reconhecimento”, continuamos a dever ao criador dessa iguaria cujo preparo desafia quituteiros de mão cheia, chefs estrelados e principiantes abusados.

E não seria a primeira vez que a memória de uma figura absolutamente anônima seria honrada por seus patrícios. O leitor abismado e a pasmada leitora devem estar lembrados que centenas de Túmulos do Soldado Desconhecido estão espalhados por esse mundo afora.

Então, e bem por isso mesmo, proponho seja erigido um Túmulo do Pamonheiro Desconhecido. Por motivos óbvios, o primeiro deles em Piracicaba. Afinal, o emblemático bordão “Pamonhas, pamonhas, pamonhas; pamonhas de Piracicaba”, deixa claro nas sugestivas entrelinhas que o legítimo pitéu feito à base de milho verde ganhou foros de cidadania gastronômica naquela simpática província.

Na semana passada cometi um pecado e venci duas barreiras ao mesmo tempo. Lembram-se do falso poder que garante ao sujeito matar dois coelhos com apenas uma paulada? Provei-o lambendo os beiços.

Sempre tive séria resistência a foodstreet. Motivo? Não sei. Então aconteceu de ouvir novamente a voz pasteurizada anunciando nas ruas do bairro: “pamonhas, pamonhas, pamonhas; pamonhas fresquinhas, distinta freguesia”.

“É hoje”, prometi aos meus desejos mais irrefreáveis.

E assim falando, mandei às favas minha irrecorrível resistência, dei um chega prá lá na ingestão controlada de açúcares imposta por implacável contingência da vida, e sai para matar tais coelhos criados pela imaginação popular.

“E aí, as pamonhas são mesmo de Piracicaba?”, perguntei ao simpático vendedor ambulante.

“Pra ser bem sincero não são não. São de Nova Odessa, mas estão uma delícia. Pode levar que você não vai arrepender”, respondeu ele.

A sinceridade decepcionou-me. Dez segundos naquele leva, não leva, nocautearam minha indecisão. Trouxe dois belos espécimes para casa.

Matei a vontade com metade de uma delas, o máximo permitido pela medicina dos homens. Estava uma delícia. Por alguma razão que minha própria razão desconhece, comi o bocado a imaginar, acreditem, que ele tinha sido concebido em Piracicaba.

Então aconteceu lembrar de minha mãe fazendo pamonha, curau e bolo de molho verde; o gosto de saudade foi intenso, enigmático, que enigmáticas são essas coisas idas e vividas que de vez em quando se põem a revirar em nossas lembranças.

A pena de me ver a navegar pela memória sem margens não é o único bem que me resta. Porque, crianças, como poetou Mário Quintana, a saudade é o que faz as coisas pararem no Tempo, e esse fato, se não comove, também não absurda.

Bom dia!

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Milton Triano