Araras, 16 de agosto de 2018

  “Você nem sabe a sorte que tem de ser feio. Quando alguém simpatiza contigo, já sabe que é por outra razão”. Charles Bukowski...
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“Você nem sabe a sorte que tem
de ser feio. Quando alguém simpatiza
contigo, já sabe que é por outra razão”.
Charles Bukowski

O culto do traseiro — ou bunda, como queiram — é mais antigo do que imagina nosso vão conhecimento das excentricidades humanas.

A representação artística talvez mais antiga da curiosa idolatria é a Vênus Calipígia, estátua romana esculpida em mármore no século I a.C. Na verdade, trata-se uma reprodução da original grega, a Aphrodite Kallipygos, 300 anos antes de a cópia latina ser feita.

O autor do clone de pedra acrescentou a cabeça de uma mulher que olha pra trás, dando a impressão que ela admira suas fartas nádegas. O singular detalhe faz supor que a valorização exacerbada da própria aparência, chilique conhecido nos círculos freudianos como narcisismo, nasceu com o primeiro homem que pisou neste vale de lágrimas. Como, dizem, o homem foi feito à imagem e semelhança de Deus, não será heresia afirmar que o altíssimo transplantou a própria egolatria no ser de carne e osso que colocou na terra para empestá-la.

Portanto, a inchação mental de que milhões são portadores não tem origem em um simples defeito de fabricação, e sim no narcisismo secundário do qual a divindade já padecia quando de “um barro meio cinzento fez seu derradeiro invento e deu-lhe o nome de Adão”— a cor do barro fica por conta do poeta Pompílio Diniz.

Em tradução gramaticalmente aceita, Vênus Calipígia significa “Vênus das belas nádegas”. Em linguagem fitness, “Vênus dos torneados glúteos”; já no popular, “Vênus do trazeiro campeão” ou “Vênus da bunda perfeita”. Aliás, bunda é o termo que prefiro à pernóstica e afetada palavra bumbum, de uso corrente hoje em dia nos porões sujos de dor e nos salões sujos de esplendor.

De alguns anos até os dias correntes o culto pela beleza física ganhou foros de epidemia. O bisturi e a seringa substituíram o cinzel, motivo pelo qual blocos de mármore ou outras pedras apropriadas ao trabalho dos artesãos não têm nenhuma serventia. Deram lugar ao corpo humano, invólucro de carne e osso que se presta aos manejos das mãos que calçam luvas de borracha para delinear formas pensadas por quem deseja dar um tapa no visual a fim de ficar bem consigo mesmo.

Rugas, pálpebras caídas, culotes e, como não, bundas, integram o rol de modificações que os cirurgiões prometem corrigir. A vista ou a prazo, no cartão ou no carnê, com dor ou sem dor, com ou sem garantia mínima de sucesso. Como a medicina é a ciência das verdades transitórias, a maioria dos profissionais das especificidades hialurônicas são cuidadosos no manejo da faca.

Não é o caso safardana do Dr. Bunda, responsável pelo infortúnio da senhora cuiabana que somou o evento morte aos 20 mil reais pagos só para realizar um desejo: deixar as nádegas belas como as da Afrodite Calipígia.

O poeta, romancista e contista teuto-americano Charles Bukowski legou ao mundo textos cujas passagens são de uma irreverência impiedosa.

“Você nem sabe a sorte que tem de ser feio”, disse ele. E emendou: “Quando alguém simpatiza contigo, já sabe que é por outra razão”.

Se o leitor cuidados e a requintada leitora perguntarem a qualquer médico se existem riscos quando da realização de um procedimento médico, ele responderá afirmativamente.

Doutores Bumbum — prefiro a terminologia doutores Bunda — garantirão que não, que é absurdo imaginar que um evento indesejado possa ocorrer.

Por isso, queridos e queridas, é melhor continuar com a popança que Deus lhes deu.

Bom dia!

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Milton Triano

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