Araras, 19 de setembro de 2017

“A gente não se liberta de um hábito atirando-o pela janela: é preciso fazê-lo descer a escada, degrau por degrau”. (Mark Twain)   O...
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“A gente não se liberta de um hábito atirando-o pela janela: é preciso fazê-lo descer a escada, degrau por degrau”. (Mark Twain)

 

O computador não era mais novidade por aqui quando resolvi adotá-lo como parceiro. Se bem me lembro, a primeira fera que enfrentei foi um modelo que substituiu o i486.

Para se ter uma idéia do tamanho do meu distanciamento da informática naquele tempo, de se dizer que as crianças do pré-primário já estavam familiarizadas com o progresso que eu recusava.

Minha resistência em trocar as doloridas marteladas nas teclas da máquina pelo toque suave proposto pelo teclado do computador tinha origem em um hábito.

Esse hábito, ditado pela rotina de trabalho na velha Remington BJ, retardou alguns anos minha decisão de integrar o clube das pessoas atraídas pelas tentações provocadas pelo avanço tecnológico.

Como não existe hábito solitário, cada lauda, forjada à custa de incontáveis toques no teclado resistente às incursões dos meus dedos, produzia um prazer indescritível; some-se a esse aprazimento uma outra satisfação: levar o texto à redação para ser transcrito e diagramado.

Dizem que uma coisa fatalmente puxa a outra. Acredito. Recapitulem comigo: do hábito de utilizar uma velha Remington para perpetrar minhas garatujas nasceu o hábito de levar os textos escritos até a redação, onde eu ficava a prosear até o fechamento da edição. Os papos com o editor e o pessoal da redação tornaram-se coisa habitual para mim.

A gente não se liberta de um hábito atirando-o pela janela: é preciso fazê-lo descer a escada, degrau por degrau. Especificamente no meu caso não houve a prudência recomendada pelo grande escritor do Missouri. Aderi de supetão ao PC, subitamente abandonei os disquetes em que gravava a coluna, repentinamente comecei a enviar os textos via e-mail ao jornal. Ou seja, desembestei do primeiro pavimento para o térreo sem pisar num degrau sequer.

Não foi fácil. A abrupta interrupção de comportamento custou-me instâncias prazerosas do viver. Convenhamos, não é fácil decretar a morte de hábitos saudáveis.

Eu poderia falar de outros hábitos que cultivo, mas a maioria dos hábitos que me habitam pedem discrição. Abertura total, e assim mesmo apenas para quem acredita em comiseração, só com o padre no confessionário e no divã com os psicopicaretas, perdão, psicoterapeutas.

Prossigo.

Bem no meio do fio da meada penduram-se hábitos que acabam virando vício, dado que a linha que separa o hábito do vício é tênue de fazer dó. Jogar no bicho é um deles. O gosto de fazer uma fezinha nos bichos de pelo, pena, couro e asa membranosa tem lá seus inconvenientes. O maior deles é ser preso em pleno delírio de acertar no milhar.

Conheci um sujeito que perseguiu a vida inteira um milhar combinado com um terno formado por pavão, tigre e urso.

Tanto perseguiu que um dia entrou em parafuso, fritou os miolos e acabou seus dias a jurar que, quando partisse pro beleléu, viria avisar a viúva a data exata em que sua intuição cantaria na pedra. A viúva, dizem, também pirou esperando a sorte grande a cavalgar no esplendor das vistosas penas pavonídeas e nos lustrosos pelos dos dois ferozes carnívoros.

Provado está que do primeiro ao quinto não transita o humano instinto.

“O que sustenta e equilibra o homem”, assegurou Clarice Lispector, “são suas pequenas manias e hábitos. E dão realce a seu desenvolvimento porque tudo o que se repete muito termina por aprofundar uma atitude e a dar-lhe espaço”.

Visto que não tenho sequer 1 grama desse desbordante talento, faço minhas suas palavras.

Bom dia!

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Milton Triano