Araras, 22 de setembro de 2017

“Vivemos todos sob o mesmo céu, mas nem todos temos o mesmo horizonte”. (Konrad Adenauer)   O sucesso é um impostor, mas a maioria...
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“Vivemos todos sob o mesmo céu, mas nem todos temos o mesmo horizonte”. (Konrad Adenauer)

 

O sucesso é um impostor, mas a maioria daqueles que o provam costumam passar batidos diante dessa escorchante realidade. Não sem razão, o autor da frase “o sucesso subiu-lhe à cabeça”, certamente notou uma brusca mudança na personalidade de alguém subitamente alçado ao topo do pódio.

A pompa que reveste a glória, alguém já o disse, é sempre transitória. Os incautos, porém, nunca se apercebem disso.

Pois bem. Estava eu posto em desassossego, da minha aposentadoria colhendo minguado fruto, naquele engano da alma, ledo e cego, quando a Cavatina de Stanley Myers, solada ao violão por John Williams, interrompeu meus impublicáveis pensamentos.

Num átimo, meus licenciosos miolos saltaram do mundo das ilusões perdidas para a realidade das lembranças jacentes, no processo mais conhecido como “uma coisa puxa a outra”. Cavatina, Myers, John Williams. Bingo: O Franco Atirador, de Michael Cimino. Filme que entra na minha lista de excelências produzidas por Hollywood. Filmaço.

Michael Cimino é um dos meus diretores preferidos. E um exemplo de que o sucesso é um enganador. Vamos lá: um insuspeito trapaceiro.

O Franco Atirador fez enorme sucesso. Tanto sucesso que recebeu um punhado de Oscar; mas tanto sucesso, que a United Artist deu total liberdade a Michael Cimino para dirigir O Portão do Paraíso. Que Cimino levou um século para filmar. Que foi um fracasso de crítica e de bilheteria. Que levou a United á falência.

Portanto, do sucesso ao fracasso o competente cineasta amargou destino idêntico ao de um potente foguete, ou seja, subiu rojão, desceu vareta.

Não diria que o sucesso subiu-lhe à cabeça, mas levando-se em conta os chiliques que teve quando rodava seu grande insucesso, existem indícios suficientes para dizer que sim.

Ora, diante da eternidade dois anos não absolutamente significam nada, e este foi o transcurso de tempo havido entre o hipnótico sucesso e o retumbante fracasso.

Mudando o assunto de turco para quibe, parece que o sucesso subiu à cabeça do prefeito de São Paulo João Agripino da Costa Doria Júnior, mas até agora ele não percebeu os graves perigos desta vida. Seu comportamento é típico do sujeito desatento às ciladas que o sucesso espalha no caminho de seus eleitos— perdão, o trocadilho não foi proposital.

Seu discurso de bom filho, bom chefe de família, self made man e homem vacinado contra a práxis política, pegou mais do que pneumonia em idoso sem defesa imunológica. É claro que a toda poderosa mídia cabocla deu uma mãozinha.

A mãozona foi dada pelas pulgas de cê u de cachorro que infestam as redes sociais. O ar estudante do curso colegial e a voz empostada de camelô arremataram a costura da fatiota de ser apolítico. Bastou.

Até aí morreu Neves. Até essa simão-bacamartiana quarta-feira, 19 de abril do ano da graça de 2017, seu comportamento como “gestor”, ao menos para mim, transpirava apenas certa dose de excentricidade do Dr. Simão Bacamarte, exotismo esse descrito por Machado de Assis no conto O Alienista.

Quarta-feira João Doria trocou o macacão de operário pelo fraque de diplomata. Afinal, a Praça de São Pedro, no Vaticano, está sempre limpa para receber os peregrinos que nela acorrem, então o papel de gari não cairia bem a um pretenso pré-candidato à Presidência da República.

De repente, não mais que de repente, João saiu do cercadinho que separa os bacanas do povão e correu em direção ao Papa. E assim fazendo, segurou a mão do sucessor de Pedro, beijou-a e, para seu delírio, entregou ao sacerdote uma bandeira do Brasil e uma camisa da Seleção autografada pelos boleiros que a integram.

Para preencher o álbum de galhofaria, renovou o convite para o Papa vir ao Brasil, convite este que Michel Temer já havia feito e Francisco havia recusado.

O comportamento do prefeito paulistano contrariou qualquer norma que rege as relações diplomáticas entre países. A primeira dessas regras diz que, em sendo o Papa um Chefe de Estado, o convite deveria partir de outro chefe de Estado, ou um seu representante do país no território respectivo. Quem pensou em Embaixador, pensou bem. Assim, o acelerado prefeito pisou na bola e marcou um gol contra.

Aconteceu porque, afinal, vivemos todos sob o mesmo céu, mas nem todos temos o mesmo horizonte.

Bom dia!

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Milton Triano