Araras, 28 de julho de 2017

“O progresso é a injustiça que cada geração comete relativamente à que a antecedeu”. (Emil Cioran) Por conta de certas coincidências, as casas onde morei, à...
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“O progresso é a injustiça que cada geração comete relativamente à que a antecedeu”. (Emil Cioran)

Por conta de certas coincidências, as casas onde morei, à exceção de apenas uma, não possuíam campainha elétrica. Devido a uma cochilada quando do acabamento da construção, o imóvel que hoje habito também não tem.

No tempo em que os bichos falavam — crianças, eu vivi naquelas priscas eras — o visitante utilizava um método bem simples para se fazer notar pelos moradores da casa: batia palmas e proferia em voz alta uma fórmula mágica cujos efeitos eram muito parecidos com o “abre-te Sésamo” do conto As Mil e Uma Noites: “Ô de casa”… Era tiro e queda. O morador raramente deixava de abrigar o apelo.

Saindo dos domínios da área urbana, o comum era a visita pura gritar “Ô de dentro…” Um segundo, se tanto, alguém repicava com um amistoso “Ô de fora, já tô ino…” E vinha mesmo.

As primeiras campainhas elétricas eram terrivelmente estridentes, irritantes. Embora tivessem surgido para substituir as mãos e a voz, o fato é que o bater palmas como método de chamar a atenção de pessoas jamais caiu em irrecorrível desuso.

Da estridência à câmera instalada no portão, o salto tem o tamanho exato de algumas décadas. Pelo andar da carruagem, logo logo nossa alma será examinada em qualquer espaço que ocuparmos, seja ele público, seja ele privado. Aquele controle social que George Orwell descreve em seu intrigante livro 1984, já neste século não é ficção.

Nos dias correntes, satélites podem calcular quantos fios de cabelo uma pessoa tem na cabeça com a mesma facilidade de quem toma um sundae de chocolate; programas de computador espreitam nossas intimidades sem ao menos dizer “Ô de casa…”; em uma cabeça de alfinete aloja-se um gravador, e se tal lhes parecer um golpe da alucinação em meus miolos, orem pela desatenção que fez ninho em vossas cabeças.

Por conta de certas coincidências, as casas onde morei, à exceção de apenas uma, não possuíam campainha elétrica. Em razão de esquecimento proposital, as franjas de tijolos que agora me recebem também não tem.

Que nenhum otimista se descuide, que nenhum pessimista se fie: o progresso é a injustiça que cada geração comete relativamente à que a antecedeu.

Bom dia!

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Milton Triano

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