Araras, 23 de abril de 2017

“Por que o planeta Terra mais parece o trabalho de um estagiário relaxado do que o produto de uma consciência superior, toda poderosa e...

“Por que o planeta Terra mais parece o trabalho de um estagiário relaxado do que o produto de uma consciência superior, toda poderosa e sábia?” (George Carlin)

 

Dizem que o diabo dá com uma mão e tira com as duas.

Não há necessidade de puxar na memória exemplos que confirmem tal verdade.

As detenções que estão mandando para a tranca a chusma de figurões da vida pública provam que o Capiroto, além de jogar os safardanas no colo dos capas-pretas, deixa-os com a brocha na mão na hora do pega pra capar. Ou seja, o chifrudo ajuda fazer, mas não ajuda esconder.

Para mim Hagi Ota, conhecido no círculo dos enforcados como Japa da Lambretta, é uma certificação dos frutos produzidos pelas alianças que o o homem faz com o tinhoso.

A ganância, o poder a qualquer preço, a usura e o uso da religião como fonte de satisfação do ego deformado são deformações de caráter originadas de alianças que, desde tempos imemoriais, o homem faz com seus demônios pessoais. Parece-me ser o caso de Hagi Ota.

No auge do sucesso das motonetas fabricadas no bairro da Lapa, em São Paulo, sob licença da homônima italiana Lambretta, Japa possuiu 14. Sua intransigível vocação para a benemerência foi responsável pela curiosa coleção. Ele emprestava dinheiro aos necessitados, vejam só. Sem avalista, sem papelada, sem mais delongas. Sem burocracia.

Quando a vítima, perdão leitores, quando a pessoa não conseguia saldar a caridade recebida, Japa da Lambretta acabava ficando com algum bem de quem, na precisão, havia batido na porta de seu sensível coração.

Em todo e qualquer gesto de bondade, não se iludam, vem sempre embutida a idéia de uma retribuição àquele que a materializou.

Continuemos. Hagi Ota nunca trabalhou na vida.

“O trabalho nunca fez meu gênero”, vangloriava-se ele. “Mas Deus sempre foi bom comigo, sempre me deu saúde e disposição para ajudar o próximo”. Falava nas benesses que recebia do além com uma convicção assustadora.

E quando assim falava, seus olhos jateavam a estupefação do interlocutor, seu rosto transfigura-se como o de Jack Nicholson interpretando o surtado caseiro Jack Torrance no filme O Iluminado, e ele entrava em uma espécie de transe mediúnico.

Dizem que o diabo dá com uma mão e tira com as duas.

Então e de repente as coisas fizeram a química reversa e transformaram o vinho em água. Os celulares desembarcaram no país tropical, a internet dominou o meio de campo da comunicação, Skype, facebook, whatsapp, instagram, o diabo a quatro.

Então as trocentas linhas telefônicas que Hagi Ota sempre teve para alugar hoje não valem um centavo furado, dois cortiços que ele possuía desabaram sob o furor de uma ventania pavorosa.

Mais devastador que essas catástrofes todas foi a ocorrência do inevitável: as pessoas abençoadas por seus gestos de amor ao próximo envelheceram, dado que o tempo é um Ringo implacável. E Ringo não perdoa, mata.

Ontem, Hagi Ota, ou, como queiram, Japa da Lambretta, tomava sol na praça. Sentado em uma cadeira de rodas, aos 97 anos de idade, e nas condições em que o diabo o deixou depois de cravá-lo com um AVC.

A primeira impressão que tive não escapou da comparação: pareceu-me ver Don Ciccio, só e desprotegido, um morto-vivo prestes a ser abatido pelo jovem chefão Vito Corleone.

Por que o planeta Terra mais parece o trabalho de um estagiário relaxado do que o produto de uma consciência superior, toda poderosa e sábia?

Bom dia!

Milton Triano

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