Araras, 22 de julho de 2018

  “É preciso que tudo mude para que tudo continue a mesma coisa”. Tomasi di Lampedusa Antes do início da Copa da Rússia, os...
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“É preciso que tudo mude
para que tudo continue
a mesma coisa”.
Tomasi di Lampedusa

Antes do início da Copa da Rússia, os erros dos árbitros de futebol eram uma espécie de instituição nacional sólida. Só não estavam inseridos na Constituição por falta de peito dos congressistas, mas integravam o rol das chamadas cláusulas pétreas que comandam nosso destino. Ou seja, ninguém poderia alterá-los ou suprimi-los.

Não é preciso puxar a memória pelo rabo para lembrarmos de uma escandalosa marcação de pênalti, da confirmação de um gol estando o jogador em descarado impedimento ou da injusta expulsão do defensor do nosso time do coração, situações que desencadeavam acaloradas discussões no jornalismo esportivo e nas mesas dos bares nossos de cada dia.

Bate-bocas, escaramuças, inimizades, divórcios, ataques cardíacos, eram descontroles debitados na conta, como diziam os narradores de rádio e tevê, de sua excelência. Em suma, do juiz.

A propósito, o politicamente correto, adjetivo criado pela censura camuflada na alma dos moralistas, começou a mostrar a cara no futebol quando alguém objetou que o mediador do jogo não deveria ser chamado juiz, mas árbitro. Cá entre nós, uma frescura.

Pois bem. As nuanças que acima mencionei, de resto particularidades que tornavam o futebol uma distração com altos teores de liberdade, serão inapelavelmente sepultadas pelo árbitro assistente de vídeo — ou, como queiram, pelo VAR —, recurso que a FIFA introduz na Copa de 2018. Pelo visto, desta vez a parafernália eletrônica veio para ficar.

Seus defensores dizem que o expediente vai corrigir erros dos mediadores das disputas. Como aqueles que ficarão com os olhos grudados nos monitores são de carne e osso como nós outros, ninguém pode garantir que os fiscais do Sarney escalados para requadrar os jogos nas telinhas enxerguem menos ou mais, uma vez que dependem dos humores intestinais do momento.

Em 2008 escrevi um texto intitulado Arquimancada, editado exatamente nesse cantinho que ouso chamar de meu. O tema girava em torno do futebol, fonte que vive a jorrar assunto, como se diz no atacado e no varejo, para mais de metro.

E a propósito dos equívocos cometidos pelos homens do apito, assim manifestei-me naquela oportunidade:

“Enfim, essas discussões sem pé nem cabeça são o elixir da longa vida do futebol. O dia que elas não tiverem mais sentido, esse abençoado esporte acaba. Em futebol, ser ou não ser não é uma questão.

Porque, em se tratando dele, como dizia o grande filósofo Neném Prancha “o importante é o principal, o resto é secundário”.

Diante da confirmação do gol da Suíça, validado pelo VAR mesmo tendo o atacante suíço claramente deslocado com as mãos o zagueiro Miranda, a impressão que fica é que os donos do futebol no mundo optaram pela dedução explicitada por de um dos personagens do romance O Leopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa: “é preciso que tudo mude para que tudo continue a mesma coisa”.

Tudo bem, mas vamos xingar a mãe de quem daqui em diante? A placa-mãe do vídeo?

Bom dia!

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Milton Triano

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