Araras, 17 de novembro de 2017

“A diferença entre o Brasil e a República Checa é que a República Checa tem governo em Praga e o Brasil tem essa praga...
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“A diferença entre o Brasil e a República Checa é que a República Checa tem governo em Praga e o Brasil tem essa praga de governo”. (Luis Fernando Veríssimo)

 

O Galopé não era uma boate. Boates têm um quê de oásis proibido num deserto de necessidades indulgentes; boates mantêm um ar de desafio às autoridades, uma postura de deboche para com as convenções sociais redondamente enganadas.

O Galopé possuía sobreditas características, mas fracionadas homeopaticamente, motivo pelo qual seria arriscado chamá-lo de cabaré, embora algumas meninas o frequentassem, digamos, profissionalmente., capicce?

No Galopé reinava a democracia que reina nos botecos da vida, mas nem por isso podemos catalogá-lo como um botequim. Bar chique? Descartem a idéia.

Na altura deste terceiro e misterioso parágrafo o intrigado leitor e a arrebatada leitora estarão a perguntar que raio de lugar é esse então.

Respondo: uma casa noturna, cujo dono chamava-se Herculano, um dos garçons Ranulfo, e a cozinheira — que os deuses da boa mesa a recompensem para todo o sempre — era uma goiana de nome Arlinda.

O Ranulfo tinha a pose daqueles mordomos que passam a vida inteira servindo os endinheirados, seja na vida real, seja nos filmes.

Sua única chispa de vaidade cingia-lhe o pescoço pelo colarinho: uma gravata borboleta comprada na Oxford Road, em Londres, presente de um frequentador que virou seu fã depois da terceira visita ao pequeno território gastronômico/pecaminoso.

Além das habilidades exigidas pelo ofício, antes de o Galopé encerrar o expediente diário Ranulfo declamava o soneto Lésbia, do poeta Cruz e Souza. Para regalo próprio e, como não, para o possível deleite dos fregueses que recusavam depor o copo antes do sexto uísque:

“Cróton selvagem, tinhorão lascivo,/ Planta mortal, carnívora, sangrenta,/ Da tua carne báquica rebenta/ A vermelha explosão de um sangue vivo”…

Emparelhemos o timbre de voz de Ranulfo com a insubstituível voz do finado ator Sérgio Viotti e teremos um senhor problema para identificar quem é quem na disputa.

Finalmente, mas não por último, falemos de Arlinda.

A Arlinda era uma cozinheira domada pelo talento precoce. Foi, por assim dizer, a quituteira que me apresentou as excelências do Galopé, um prato feito com carne de galo e pés de porco cozidos na mesma panela. Tudo junto e misturado com temperos que suas mãos, jurava de pés juntos, haviam sido formulados secretamente por seus abençoados dotes culinários.

Tudo foi bom enquanto durou, que a vida é assim mesmo.

Um dia os homens da fiscalização sanitária cismaram que o Galopé tinha de caminhar sobre um oceano de regrinhas se quisesse funcionar dali pra frente.

As exigências começavam pelo assentamento de azulejos na cozinha e nos banheiros e, passando pela instalação de um lavabo, desaguavam na proibição da utilização de produtos não autorizados pelo Serviço de Inspeção Federal.

Ora, as carcaças dos galináceos e as patas dos suínos viajavam dos sítios para as panelas pilotadas por Arlinda, fato que, antes de desabonar os regabofes que varavam as madrugadas, deveras o enriqueciam.

Durante seu reinado nas mil e uma noites de funcionamento, nunca se soube de alguém ter ficado com diarreia depois de comer um Galopé regado a cerveja Faixa Azul; infecção alimentar, boqueira, e outros tormentos menos ou mais considerados, também não.

Dizem que ao receber a notificação, Herculano — finalmente vou falar dele — olhou para o papel e, depois de ler rapidamente seu conteúdo, antecipou a Luís Fernando Veríssimo em algumas décadas:

“A diferença entre o Brasil e a Checoslováquia é que a Checoslováquia tem governo em Praga e o Brasil tem essa praga de governo”.

Virou as costas, entrou no Gordini, engatou uma primeira e se mandou pra Pasárgada, visto que lá era amigo do rei, tinha a mulher que queria na cama que escolheu.

Bom dia!

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Milton Triano