Araras, 22 de julho de 2018

Fama

BlogsMilton Triano 23 de junho de 2018 Milton Triano 0

“O artista passa metade da vida buscando a fama, e a outra metade fugindo dela”. Charles Chaplin Em plena temporada de caça à Copa,...
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“O artista passa metade da vida
buscando a fama,
e a outra metade fugindo dela”.

Charles Chaplin

Em plena temporada de caça à Copa, o assunto predominante nos proseios é o futebol. Nem poderia ser diferente. Muito mais antigamente, seguramente bem menos hoje, a Seleção ainda é o único canal que liga o povo às suas raízes. E como assim é, fica difícil ao escriba enveredar na trilha de outros assuntos, seja porque minguam, seja porque os que sobram não abrem meu apetite.

De quatro em quatro em quatro anos, qualquer outro tema torna-se banal diante da sincera ingenuidade de Mané Garrincha ao ser abraçado por Nilton Santos após o término da heroica partida em 1958, na cidade de Estocolmo: “ué, compadre, não tem segundo turno?”

O gênio de pernas tortas chamava de “João” a todos seus marcadores, fossem eles da Rússia, Inglaterra, Áustria ou Escócia, visto que não era capaz de conceber qualquer torneio sem segundo turno. Coisa própria dos prodígios, seres que vivem em outras insondáveis esferas.

Acabo de assistir a reprise de um filme que já passou dezenas de vezes, um time jogando o tempo todo dentro do campo do adversário. A defesa inimiga ajusta-se no famoso ferrolho — ou retranca, como queiram —, seu oponente rola a bola sem conseguir vencê-lo. As tentativas são infrutíferas, parece que o placar ficará mesmo em branco

Os trâmites já se davam por findos quando os gols ressuscitaram a autoestima de todos. A nossa e a dos jogadores. Um gol, depois outro. Nos descontos. Ou, como queiram, naqueles minutos em que o irremediável começava a escrever mais uma história cujo enredo é tecido de decepção.

O juiz apitou, o jogo acabou, nossa aflição também. A nossa e a dos atletas que jogaram com uniforme azul. No campo, um deles ajoelha-se e começa a chorar. Diz a ciência que o choro pode ser provocado por diversos motivos. Tristeza, saudade, alegria, dor, depressão, raiva, medo e aflição, por exemplo, podem desencadeá-lo.

Ninguém, absolutamente ninguém, pode dizer porque ele chorou tão abundantemente. Ele, e somente ele, tem condições de dizer por quê. No máximo podemos supor porque. Não vou arriscar palpite. Histórias humanas correm sempre à margem dos pitacos e dos delírios intuitivos.

Então fico assim: Neymar chorou porque é feito de carne e osso. Apenas uma singularidade o torna diferente de bilhões de seres feitos de carne e osso. Ele é famoso, condição da qual bilhões de humanos são desprovidos.

A fama em si não dói, mas dolorosamente pesa. Um peso que nem Atlas suportaria. Nem Atlas, nem Hércules, nem todos os deuses do Olimpo. A fama limita os movimentos, portanto limita as ações, condutas, escolhas, desejos, enfim, a vida daqueles que dela são dotados. A fama aniquila e segrega, marginaliza.

Todo garoto tem o direito de pentear os cabelos como assim o desejar. Neymar não. Todo mundo pode tatuar o corpo, presentear, dar festas, rodear-se de amigos, comprar iate, avião e automóvel a preço de ouro. Colocar brilhantes na orelha? Ora, é claro que todos podem. Neymar não.

Se parte da imprensa, tuiteiros, feicebuquianos e uatisapianos não se incomodassem tanto com a vida privada de Neymar, provavelmente ele não teria escondido o rosto com a camisa da seleção — teria sido um ato falho? — para chorar. Neymar sofre de um mal que toda pessoa famosa sofre: o mal da fama, doença que pode levar seu portador à loucura.

Pois foi padecendo desse mal que Charles Chaplin descobriu que um artista passa metade da vida buscando a fama, e a outra metade fugindo dela.

A glória, com toda sua pompa transitória, tem dessas coisas.

Bom dia!

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Milton Triano

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