Araras, 18 de dezembro de 2017

“O melhor tempero da comida é a fome”. (Marcus Tullius Cicero)   O frio canalha que terça-feira abriu as asas sobre nossos trincados ossos,...
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“O melhor tempero da comida é a fome”. (Marcus Tullius Cicero)

 

O frio canalha que terça-feira abriu as asas sobre nossos trincados ossos, está produzindo altíssimas concentrações de aborrecimento em meu desprevenido psiquismo.

Tenho amigos que amam de paixão o frio intenso; eu detesto de ódio o inferno, perdão, o inverno— o lapso tem lá sua razão de ser, posto que Dante, em sua excitante Divina Comédia, projetou o último círculo do inferno com o que há de melhor em horror glacial.

Porém, o baixo astral que essa massa de ar polar trouxe a tiracolo, infelizmente não congela algumas obrigações que, por suposto, não podem ser cumpridas debaixo de cobertores e acolchoados que comprei na elegante Feirinha do Brás.

E como assim infortunadamente é, mais agasalhado do que Frederik Cook quando chegou ao Polo Norte em 1909, parto para a aventura no mar gelado de guichês que recolhem os caraminguás nossos de cada dia. Oh-la-la!

O fato de a área central da cidade ser agora um paliteiro cheio de carrinhos que vendem principalmente hambúrgueres, obriga-me a suportar um desconforto adicional: o cheiro de gordura defumada que sai das chapas fumegantes.

Não mais que de repente, “sem preconceito ou mania de passado, sem querer ficar do lado de quem não quer navegar”— obrigado, Paulinho da Viola, pela cessão de seu inesquecível Argumento —, a porção gourmetizada de minha memória catapulta-me a algum bar do passado.

Bar do Chalau, Bar do Ponto, Bar A Paulicéia, Bar do Júlio Garófalo… A lista não se esgota na citação aleatória; seu único propósito é indicar os primeiros em um ranking formado por pelo menos uma dúzia de botecos responsáveis pela formação de uma geração inteira de incorrigíveis boêmios.

Nas álgidas madrugadas de julho, o Bar do Júlio, sem dúvida meu preferido, oferecia um irrecusável sanduiche feito com bifes de lombo de porco, queijo prato derretido e finíssimas rodelas de tomate, tudo devidamente acomodado nas entranhas do pãozinho francês feito pelo padeiro Querubim.

Daqui 60 anos os jovens de hoje provavelmente irão falar com saudade dos lanches que saboreiam atualmente, sejam eles pseudo-aristocráticos da linhagem Mac, sejam eles simples súditos chapeados na rua. Embora eu não seja nenhum João Bidú, minha previsão baseia-se em inafastável realidade. Senão vejamos.

No começo dos anos 1950 a população mundial era de aproximadamente 2,5 bilhões de pessoas; hoje, o globo tem de suportar o peso de pouco mais de 7 bilhões de seres humanos, ou seja, quase 1/3 a mais de bocas precisam ser alimentadas. Em se tratando de comida para multidões, a necessidade vira um caso de polícia.

Mesmo assim, os quituteiros precisam entender que reinventar sanduiche é fácil, o difícil, quando não impossível, é fazer com que a reinvenção não perpetue gosto de cabide mofado na boca de quem se atreve ser cobaia dos inventores do ilusório sanduiche-gourmet. Damasco não casa com torresmo, gorgonzola foge de shitake, doce e salgado não se beijam num sanduiche digno do nome.

Se bem não me fiz entender, mais uma vez socorro-me do sambista Paulo César Batista de Faria, o imortal Paulinho da Viola: “Tá legal, eu aceito o argumento/ Mas não alterem o sanduiche tanto assim/ Olhem que a rapaziada está sentindo a falta/ De um lombo de porco feito na chapa, com tomate e queijo prato derretido e de um pão francês do Querubim”.

Os senhores também deve atentar para o seguinte: o melhor tempero da comida é a fome. Embora discutível, a opinião do romano Marcus Tullius Cicero atravessou 2 mil anos terrenos. Então, convém ficar de olho nela.

Bom dia!

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Milton Triano