Araras, 14 de dezembro de 2018

“Quem é casado há quarenta anos com dona Maria não entende de casamento, entende de dona Maria”. Chico Anísio O inverno, que me desculpem...
Compartilhe em suas redes sociais!

“Quem é casado há quarenta anos
com dona Maria não entende de
casamento, entende de dona Maria”.
Chico Anísio

O inverno, que me desculpem os idiotas que embrenham-se no sul do país para ver neve caindo e beber chocolate quente, foi criado em um momento de total falta de imaginação do bom Deus. Que ninguém se perca nos caminhos da fé irrecorrível: os deuses também têm ataques de vulgaridade.

Tirante o aquecimento da alma proporcionado por uma ou duas taças de vinho, e a declaração de guerra que o fondue faz aos prazeres da mesa, o que sobra para alguém enfrentar esses intoleráveis dias gelados? Absolutamente nada.

Com o corpo e a alma sitiados pela poeira gelada que cobre a cidade, aventuro-me pelos trechos que me levarão aos locais determinados pela responsável pelo rango nosso de cada dia; essa é a parte que me toca na consecução do projeto culinário elaborado para essa sexta-feira 13. Segundo a tradição vaticana, dia de Santo Henrique II.

São dez horas da manhã e minutos atrás eu já havia me convencido de que hoje seria a cópia reprográfica da segunda-feira, e depois da terça-feira, e depois da quarta-feira e também da quinta-feira, mofados integrantes de uma semana que nem em sonho ameaçava derrubar as inserções pessimistas que juncam meu viver.

Eis que, ao cruzar a Praça 8 de Abril, meus olhos imobilizaram-se diante de um frame poeticamente lúcido, plasticamente cinema do mais alto nível. Uma jovem, imagino que uma noiva a finalizar seu conto de fadas, saía do cartório acompanhada daquele que acabara de se tornar seu homem— acho a palavra esposo afetada, limitadora, incabível aos fins a que se destina.

A cena moveu-se em uma autenticidade incrível. Pessoas simples invariavelmente compõem quadros esteticamente irretocáveis; evidentemente não pela semelhança entre os enredos, senão pelo instantâneo em si mesmo, lembrei-me de Cenas de Um Casamento, filme que Ingemar Bergman lançou há 44 anos.

Saquei da capanga uma tira de papel em branco.

Soletrando em voz baixa cada palavra, escrevi uma frase do escritor sueco Carl Almqvist: “Durante o vosso casamento finjam que ainda não são casados e tudo irá bem. Que haja sempre algo de não atingido e de inacessível entre os dois”. A idéia inicial era entregar ao casal. Menos por excesso de zelo e mais por falta de coragem, recuei e saí abraçado com meus encargos rotineiros.

A instituição casamento mudou. Pouco, muito ou quase nada, mudou. Mas não acabou. Descontados os casos daqueles que deliberaram não dar um só passo em direção à forca, a vontade de juntar os trapos ainda apresenta altos teores de naturalidade no seio da espécie humana.

A convivência a dois não é fácil. Também não é difícil. Se fosse fácil não se chamaria casamento; se fosse difícil não haveria festa de bodas de ouro. Ninguém precisa entender de casamento. Entendendo razoavelmente de ser humano já é um bom começo.

Chico Anísio, sabidamente o campeão de casórios, tinha uma explicação para as uniões duradouras: “Quem é casado há quarenta anos com dona Maria não entende de casamento, entende de dona Maria”. A constatação é uma dessas coisas que a Psicanálise descobre a cada meio século.

Enfim, um casamento pode mudar um monte de coisas. Um dia aziago e uma sexta-feira 13 em colírio para olhos tristes e arritmias da alma, por exemplo, em crédito na conta corrente das coisas eternamente imperfeitas.

Bom dia!

Compartilhe em suas redes sociais!

Milton Triano

error: Conteúdo não disponível para cópia.