Araras, 17 de novembro de 2017

“Os mortos ressuscitam? Os livros dizem que não, a noite diz que sim”. (John Fante)   Ainda explodem no ar as descabidas ofensas que...
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“Os mortos ressuscitam? Os livros dizem que não, a noite diz que sim”. (John Fante)

 

Ainda explodem no ar as descabidas ofensas que parte da boçalidade tupiniquim dirigiu e ainda dirige contra o grande Chico Buarque.

A pilantragem midiática cabocla nunca engoliu que Chico, bamba comparável ao grande Noel, seja um daqueles que ajudam a lavar o nome sujo que temos lá fora. Em Roma, Lisboa, Paris, e adjacências, a simples menção de seu nome abre canais que irrigam elogios a uma produção intelectual que deveria envaidecer os brasileiros indistintamente.

Seu contato quase constante com artistas europeus sempre rendeu bons dividendos a todos nós.

A cantora e compositora lisboeta Maria do Carmo de Carvalho Rebelo de Andrade, conhecida como Carminho, merece ser lançada na coluna “lucro” dessa espécie de contabilidade.

Além de gravar músicas de Chico, muitas delas com o dito cujo, a cantora portuguesa fez registros sonoros de Tom Jobim. Convenhamos, melhor que isso para divulgação da MPB, só isso mesmo.

Àqueles que ainda não conhecem Carminho, apresento-a num retrato ¾ : moça bonita que dá gosto ver. Um charme de mulher; bela cantora que dá gosto ouvir. Um encanto de cantante.

A releitura vocal de Carolina feita por Chico e Carminho é um desses momentos cuja fertilidade emocional, além de açular a memória de quem sobreviveu aos emblemáticos anos 1960, incita refletir o seguinte: a função nuclear do ponto de interrogação não é apenas perguntar, mas também induzir à dúvida.

Você estava lá quando tudo aconteceu? O que foi feito daquela sedução iconoclasta? Valeu a pena decretar a prescrição das velhas penas impostas sobre nossas cabeças? “Mudando de conversa onde foi que ficou aquela velha amizade./ Aquele papo furado todo fim de noite? Num bar do Leblon/ Meu Deus do céu que tempo bom!/ Tanto chope gelado, confissões à bessa/ Meu Deus quem diria que isso ia se acabar/ E acabava em samba/ Que é a melhor maneira de se conversar”— comprovação de Hermínio Bello de Carvalho. Palavras da interrogação.

Os versos iniciais de Carolina — Carolina, nos seus olhos fundos guarda tanta dor, a dor de todo esse mundo —, e o arremate que Chico deu na letra — Eu bem que mostrei a ela, o tempo passou na janela e só Carolina não viu — são tão atordoantes quanto outros igualmente arrebatadores que a Poesia inspirou em nossa deturpada língua portoinglesa.

Em cada reencontro com essa Carolina que guarda em seus olhos entranhados o padecimento de todo esse mundo, lembro-me de Diva Agar. Diva, de divindade feminina segundo a mitologia; Agar, serva egípcia de Sara, esposa de Abraão, segundo a lenda bíblica.

O cartorário que efetuou o registro do nome da criança não atentou para o som desagradável que a união dos dois nomes produzia, de sorte divindade e escravidão deram-se as mão para a mais improvável das alianças. Resultado: o cacófato foi sacramentado na forma de certidão de nascimento. Desta para o bullying o passo foi mais curto do que o de um anão.

Diva Agar é até hoje, digamos, uma pessoa muito lenta quando o exercício é pensar. Pelo fato de raciocinar em bloco, ou seja, não ter opinião formada nem sobre receita de bolinho de chuva, suas opiniões não divergem daquelas formuladas por uma pessoa com 40 graus de febre. Diva Agar, quase surtando, é uma figuraça.

Com o perdão pelo trocadilho, ela é tão devagar que o tempo passou na janela e só ela não viu.

Carminho com a salvação. Diva Agar com o andor.

Os mortos ressuscitam? Os livros dizem que não, a noite diz que sim.

Bom dia!

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Milton Triano