Araras, 25 de maio de 2017

“Quando eu era criança, me ensinaram que qualquer pessoa podia ser presidente. Agora estou começando a acreditar”. (Clarence Darrow)   O jornalista norte-americano Henry...
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“Quando eu era criança, me ensinaram que qualquer pessoa podia ser presidente. Agora estou começando a acreditar”. (Clarence Darrow)

 

O jornalista norte-americano Henry Louis Mencken deixou textos que, além de notável essência, não se corrompem com o tempo.

Tais escritos são, por assim dizer, carapuças calçáveis por todos que delas quiserem se servir; nessa quadra a nós reservada pela mala dicha, Mencken teria assunto, como diz o povo em sua sabedoria, para mais de metro.

O combativo periodista morreu há 61 anos. Porém, sua agudeza de espírito resiste ao tempo, seja pelo fato de essa perspicácia ter filtrado uma crítica social importante, seja pela indiscutível sinceridade com que ele exercia a profissão.

Paulo Francis dizia que “Mencken é atualíssimo”. No instante em que meus dedos tamborilam sobre o teclado, essa, digamos, atemporalidade, abre ensancha para que eu, face à minha reconhecida falta de talento para o ofício, bem como à mingua do mínimo de inspiração para pegar o touro à unha, deixe que o homem de Baltimore rasgue o verbo por mim.

Estamos mal servidos de Judiciário, muitíssimo mal servidos de Executivo — quando eu era criança, me ensinaram que qualquer pessoa podia ser presidente. Agora estou começando a acreditar — e muito, muito, mas muito mal servidos de Legislativo, pensei em transcrever um trecho-carapuça que foi redigido pela inteligência menckeniana.

O que nossos dirigentes pretendem fazer com a brava gente brasileira autoriza-me fazê-lo. Imagino que sim. Com a palavra, pois, Henry Louis Mencken:

“Os políticos, raramente, se nunca, são eleitos apenas por seus méritos— pelo menos, não em uma democracia. Algumas vezes, sem dúvida, isso acontece, mas apenas por algum tipo de milagre.

Eles normalmente são escolhidos por razões bastante distintas, a principal delas sendo simplesmente o poder de impressionar e encantar os intelectualmente destituídos…

Será que algum deles iria se arriscar a dizer a verdade e nada mais que a verdade sobre a real situação do país, tanto em questões internas quanto externas?

Algum deles irá se abster de fazer promessas que ele sabe que não poderá cumprir— que nenhum ser humano poderia cumprir? Irá algum deles pronunciar uma palavra, por mais óbvia que seja, que possa alarmar ou alienar a imensa turba de idiotas que se aglomeram ao redor da possibilidade de usufruir uma teta que se torna cada vez mais fina?

Resposta: isso pode acontecer nas primeira semanas do período eleitoral… Mas não após a disputa já ter ganhado atenção nacional e a briga estiver séria… Eles todos irão prometer para cada homem, mulher e criança no país tudo aquilo que estes quiserem ouvir.

Eles todos sairão percorrendo o país à procura de chances de remediar o irremediável, de socorrer o insocorrível, de organizar o inorganizável, de deflogisticar o indeflogisticável.

Todos eles irão curar as imperfeições apenas proferindo palavras contra elas, e irão pagar a dívida nacional com dinheiro que ninguém mais precisará ganhar, pois já estaremos vivendo na abundância. Quando um deles disser que dois mais dois são cinco, algum outro irá provar que são seis, sete e meio, dez, vinte, n.

Em suma, eles irão se despir de sua aparência sensata, cândida e sincera e passarão a ser simplesmente candidatos a cargos públicos, empenhados apenas em capturar votos.

Nessa altura, todos eles já saberão — supondo que até então não sabiam — que, em uma democracia, os votos são conseguidos não ao se falar coisas sensatas, mas sim ao se falar besteiras; e todos eles dedicar-se-ão a essa faina com vigoroso entusiasmo.

A maioria deles, antes do alvoroço estar terminado, passará realmente a acreditar em sua própria honestidade.

O vencedor será aquele que prometer mais com a maior possibilidade de cumprir o mínimo”.

Bom dia!

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Milton Triano

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