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24/07/1011h23

Informações úteis sobre a inutilidade

Milton Triano
miltontr@yahoo.com.br

“Eu quero a atualidade sem enfeitá-la
     com um futuro que a redima”.
               Clarice Lispector
   
    Ando com a pulga atrás da orelha.
    No lugar desta expressão idiomática pouco ou quase nada utilizada pela mocidade sarada de hoje em dia, eu simplesmente poderia dizer que estou preocupado. Intrigado, vamos dizer.
    Porém uma crônica, convencionemos, deve disponibilizar algumas boas serventias aos que se dispõem escrevê-las. Por suposto, entendo seja este o meu caso.
    Vamos ao ponto. Gostaria de saber por que cargas d’água uma pulga é capaz de se amoitar na orelha de alguém. Ou seja, de onde foi que a sabedoria popular tirou essa preciosidade.
Adianto que o professor Google, o João Sabe-Tudo da era da modernidade – qualquer dia desses contarei as proezas do façanhudo –, não disse uma vírgula sobre o meu questionamento.
Porém, deixo bem claro que a língua que ele utiliza para lecionar, chamada Informática, é uma impossibilidade que se ajusta ao meu alheamento das novidades que, no item, a cada minuto batem à nossa porta.
    Aquela velha afirmação desconstrutivista que a gente ouve sistematicamente, e que reduz a inexorabilidade das coisas a um chavão pretensioso, o “eu sou velho, mas sou jovem de espírito”, nunca me convenceu.
    Se querem mesmo saber, acho-a uma tremenda idiotice.
    Mas eu dizia que ando com a pulga atrás da orelha. Quem a colocou ali nada mais fez do que jogar gasolina na fogueira ao advertir, aos leigos como eu, que tudo aquilo que não mata, engorda. Consequentemente, aquilo que não engorda, mata.
    Infortunadamente e por determinação médica, há vários anos tomo diariamente um comprimido de um remédio que, de um mês até o exato instante em que escrevo estas mal traçadas linhas, está sendo mostrado, em uma série de reportagens, como o diabo encarnado em uma minúscula drágea.
    Ou seja, deixaram o similia similibus curantur pirado.
    Meu medo de ser vitimado pelos horrores descritos como “sérios efeitos colaterais comprovados” atingiu o clímax nesta madrugada.
    No meio de um exorbitante pesadelo, cujo enredo foi cinematograficamente desenvolvido quadro-a-quadro exclusivamente com o pavor que as reportagens foram passando, acordei sobressaltado: “não, não, eu confesso que não tomo mais”.
    O suor abundante encharcou meu pijama de tal maneira que, num átimo, cheguei a duvidar que ainda estivesse neste vale de lágrimas: “eu ainda durmo ou já estou em seu reino, Senhor?” 
    Penso que a Sociedade Médica Brasileira e o Conselho Federal de Medicina deveriam cuidar para que as discussões a respeito dos graves perigos representados pela ingestão de determinado medicamento, fossem divulgadas quando as conclusões prescrevessem sua retirada definitiva do mercado.
    Alguém poderá argumentar: “a divulgação da controvérsia é uma forma de sensibilizar a ANVISA, a sociedade participa do debate, então o processo de proibição é mais rápido”.
Contraponho: o pânico que dados científicos dependentes de confirmação provocam, é tanto ou mais prejudicial do que o consumo do remédio que está na alça de mira da comunidade médica.
E não me venham com aquela história de que tudo o que cura também faz mal. A Medicina, sabidamente é a ciência das verdades transitórias, mas não precisa chegar a tanto.
    “A bula já contém todas as informações sobre os efeitos colaterais que o médico americano que pesquisou o remédio está divulgando. Não há unanimidade sobre o assunto”, disse-me o médico que, paciente e competentemente, há muitos anos trata da minha carcaça.
    Para mim, bula de remédio deveria ter apenas uma informação útil sobre a inutilidade de se tomar conhecimento daquilo que ela contém:
    “Tome na dose recomendada por seu médico. O resto não leia. Você não entenderia, além do que esse troço tanto pode curar como matar. Como você vê, o resultado tanto faz como fez. Posologia recomendada: tome um comprimido, aperte o cinto, e chame Deus. Glória”.
    Eu apenas quero a atualidade sem enfeitá-la com um futuro que a redima. Não é pedir muito, não é mesmo?
    Bom dia!
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