Sexta-feira, 30 de Julho de 2010


Procurar no Site

Enquete

Qual área você acha que deveria ser prioridade no governo do novo prefeito de Araras?
Saúde
Educação
Trânsito
Geração de emprego
Segurança

Araras - SP

30/07/2010

Máx: 27°

Mín: 12°

Fonte: CPTEC/INPE

Editorias

Brasil
Casal Estudantil
Edição 2004
Edição 2005
Edição 2006
Edição 2007
Edição 2008
Edição 2009
Charge
Cidade
Editorial
Entrevista
Especial
Esportes
Amador
União São João
Internacional
Novidades
Entrevistas
Matéria Especial
TV
Observatório
Política
Região
Segurança
Tribuna no Bairro

Blogs

Social
Click - Cristiano Leite
Coluna Social
Fábio Daltro
Josi Pinheiro
Bastidores da Bola - Célio Casarin
Bom Dia Esportistas! - Walter Gambini
União na Área - Marcial D’Sanctis
Dedo de Prosa - Milton Triano

05/02/1022h05

Imperativo negativo

Jornal Tribuna do Povo
reportagem@tribunadopovo.com.br

“A vida é muito mais variada, anárquica e imprevisível do que sonham os ideólogos”. (Paulo Francis)
    Os campos de minha infância haverão de me fartar até que a morte nos separe.
    Deles nunca me cansarei de falar. Visitá-los, um exercício vital; trazê-los aqui para um dedo de prosa, uma forma de apaziguar os incontroláveis impulsos que me despejam nos torturantes domínios da saudade.
    Assim posta a questão, julgo não estar sendo recorrente se falo agora da sombra do velho anjiqueiro, dos pés de gabiroba, do marolo do campo a despejar, nas beiras pedregosas de um certo córrego raso, o perfume intenso de seus frutos maduros.
    Tem dias que até um comichão se engraça com minhas pernas até o ponto de eu não resistir e ter de coçá-las. Como se tivesse andado de calça curta e sem sapatos pelos campos empesteados de arroz-de-bugre e mata-cavalo.
    Pois bem. Foi só ouvir o trovão depois de um corisco ter viajado no céu no sentido oeste, mecanicamente eu disse a mim mesmo:
    “Não se assuste, São Pedro está lavando o quarto e a mulher dele acabou de arrastar o guarda-roupa para que ele jogue água atrás do móvel”.
    Era exatamente esse o sugestivo comentário que fazíamos quando ouvíamos o barulho que se seguia à queda de um raio.
Garotos compromissados apenas com o dolce far niente que a pedagogia caseira daquele tempo nos proporcionava, éramos sistematicamente abastecidos pela tradição oral, essa admirável fábrica de ritos e mitos que suprem algumas de nossas necessidades, digamos, mais transcendentais. 
Se bem me lembro, foi do velho João Thomaz, um filho de escravos, que ouvi pela primeira vez a explicação para os fenômenos meteorológicos.
O João Thomaz era uma figura singular. Sempre de terno azul marinho, camisa branca abotoada no colarinho, chapéu de feltro na cabeça e...descalço. Dizia que sapatos tolhiam-lhe as passadas como se fossem algemas.
“Sêo João, onde é mesmo que o senhor mora?”
“Logo ali, menino. Ali, onde Minas quer ser São Paulo e São Paulo quer ser Minas. Antes da revolução de 32 os dois já tinham essa querência, mas um não falava dela pro outro. Entonce, eu moro numa fazenda que num fica na divisa, a fazenda fica pertinho duma querência, entendeu?”
De outra feita:
“Sêo João, quem falou pro senhor que São Pedro era casado? Ninguém sabe até hoje o nome da mulher dele”...
“Pra você ver. Mas se Cristo foi na casa de São Pedro e curou a sogra dele, entonce é porque São Pedro era casado, uai”.
As estridulantes gargalhadas de João Thomaz ensejavam uma visão aterradora: dois caninos desproporcionais e pontiagudos, quase roçando o lábio inferior, alimentavam em nós a crença de que ele virava lobisomem, boato esse que sempre correu pelo bairro com asas nos pés e fogo na intenção.
Lembranças vão, lembranças vêm. Porque a vida é muito mais variada, anárquica e imprevisível do que sonham os ideólogos.
Motivos não me faltam, vocês terão notado, para de vez em quando construir essas pontes que me ligam a fatos e situações que ficaram lá atrás.
Vivi com todas as forças o imperativo afirmativo: brinca, viva, faça, respeita, ouça, modifica.
Seja por esse ou aquele motivo, mas no resumo em decorrência de uma visão de mundo traduzida no conceito que resume o homem ao estado de um animal que deve ter utilidades que o façam merecedor de pisar na terra, meninos e meninas vivem hoje o tempo do imperativo negativo: não fales, não comas, não cumpras.
“O que é um adulto? Uma criança de idade”, disse Simone de Beauvoir.
Penso agora que as crianças não têm um João Thomaz que lhes mostre uma fagulha sequer do realismo mágico que nos ronda e nos cerca.
Não sei se é bom, não digo que seja ruim. Estranha-me o imperativo negativo que lhes determina seguir a estrada de uma nova ordem universal.
Estranha-me e assusta-me apenas seja sugerido a elas, a cada minuto de toda hora de todos os dias, o imperativo negativo do verbo “cumprir”. 
Bom dia!
Nome
Obrigatório
e-mail
Não será divulgado
Mensagem
Apenas para efeito de confirmação, digite em minúsculo na caixa de texto, as letras que aparecem na figura abaixo.



© Copyright Tribuna do Povoe & WOOPI Newstream. Todos os direitos reservados:

| História | Publicidade | Assinaturas | Fale Conosco | Rss 
Atualize seu Navegador