26/02/1019h57
A volta dos que não foram
Jornal Tribuna do Povo
reportagem@tribunadopovo.com.br
"A vida a gente meio que manda,meio é mandado”. (Domingos Pellegrini Júnior)
Havia um programa semanal na extinta rádio Jornal do Brasil do Rio de Janeiro intitulado As dez mais de sua vida, apresentado pelo jornalista Luis Carlos Saroldi.
O nome do programa dá uma valiosa pista sobre seu conteúdo.
O convidado, que Saroldi levava ao estúdio da JB para relacionar dez composições musicais mais marcantes, ou seja, as que verdadeiramente o haviam sensibilizado, invariavelmente era alguém que os ouvintes conheciam.
Como as exceções não caíram no mundo como um maná, anônimos também eram solicitados a opinar. Motivo pelo qual jornalistas, profissionais liberais e desconhecidos em geral, de vez em quando surfavam nas ondas da simpática emissora de rádio carioca.
Com igual ânimo apresentavam o rescaldo da seleção pessoal e debulhavam curiosas histórias sobre o motivo da escolha, algo muitas vezes mais interessante que a apresentação dos figurões que compõem o selvático mundo intelectual.
Entremeando a apresentação de cada uma das dez mais, a conversa entre apresentador e apresentado rendia um proveitoso, saboroso e instrutivo par de horas.
Os bons programas de rádio sempre são bons companheiros quando a noite começa o processo de metamorfose que fará dela, como uma lagarta que se transforma em borboleta, o dia seguinte.
Donde se pode concluir que As dez mais de sua vida foi para mim durante alguns anos, uma companhia não apenas prazerosa, mas instigante.
Mas não é só com música que podemos fazer o jogo das “dez mais”. Não faz muito tempo, um amigo desafiou-me a elaborar uma relação daqueles que, para mim, foram os dez melhores filmes que assisti.
Custou para sair. Como na vida, sempre fica um de fora.
Livros indispensáveis, restaurantes inigualáveis, peças de teatro fundamentais, atores e atrizes incomparáveis, diretores de cinema insubstituíveis, jogos de futebol memoráveis. Listas do tipo “dez mais” são quase inesgotáveis.
Eu apenas não me aventuro a relacionar as dez viagens inesquecíveis. Por ser avesso a andanças, não tenho como relacionar uma sequer. Além disso, senhor Tolstoi, não conheço sequer a minha aldeia, como haveria então de conhecer o mundo?
Lista, relação, ou coisa que o valha, só dá gosto fazer com coisas que nos dão um retorno agradável. Faz parte da natureza do homem. Ninguém gosta de pensar na desgraça. Vade retro, satanás.
Se alguém, sem mais nem menos, propõe um “vamos fazer a lista das dez notícias mais escabrosas que já recebemos?”, fatalmente receberá como resposta um “vá se roçar mas ostras” mais cantado do que pedra no bingo.
Existem questões que, por suposto, jamais devem ser levantadas. Notícias infaustas fazem parte do rol.
Ontem, o exemplo daquilo que vos falo transitou na telinha ao vivo e em cores.
Um repórter de TV, segurando o microfone como se tivesse na mão o cetro do Reizinho, perguntou a um daqueles gaúchos que acertou os números da megasena, mas não vai levar o prêmio: “foi a pior notícia que você recebeu na vida?”
Como os olhos são inegavelmente o espelho da alma, estou convencido de que assisti a um fuzilamento no horário nobre. O ódio do sem-sorte rasgou como um raio as 29 polegadas do televisor. Juro que tremi.
Confesso que a cena me comoveu. Porque ali estava, desnudado pela rombuda ferramenta tecnológica, alguém que voltou sem nunca ter ido.
Ontem, milionário. Hoje um daqueles miseráveis que John Steinbeck alojou em suas Vinhas da Ira. E, incontinenti, me veio à lembrança a dramática constatação de Albert Camus:
“Só um grande esnobismo espiritual faz com que as pessoas acreditem que podem ser felizes sem dinheiro”.
De verdade mesmo, a vida a gente meio que manda, meio é mandado.
Bom dia!
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