Araras, 22 de julho de 2018

  “Uma tela em branco é uma maravilha viva… muito mais bela do que certas imagens”. Wassily Kandinsky Uma explicação elementar do que seja...
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“Uma tela em branco é uma maravilha viva…
muito mais bela do que certas imagens”.
Wassily Kandinsky

Uma explicação elementar do que seja a visão diz que ela é o sentido que, por meio dos olhos, permite ao homem aprimorar a percepção do mundo que o cerca. A definição, é claro, vale para os demais seres vivos dotados de órgãos idênticos, especiais ou coisa que o valha. Contudo, limito-me à nossa espécie, o que, convenhamos, já está de bom tamanho.

Pelos caminhos dessa explicação reducionista, conclui-se que os olhos servem para ver, enxergar, avistar. Nada a opor, pois a ciência diz que eles foram feitos exatamente para desempenhar estas serventias. A certeza desta destinação está selada em conhecida expressão popular, segundo a qual “eu vi com esses olhos que a terra há de comer”— Provavelmente a geração Y jamais tenha ouvido alguém ofertar a redundante fiança, mas ninguém pode garantir que de uma hora para outra ela não retome seu posto nas usanças sociais.

Tomé, o Apóstolo, protagonizou aquele que talvez seja o episódio mais rumoroso a envolver o sentido da visão. Dizem que ele duvidou da ressurreição do Nazareno, tendo cimentado seu ceticismo com uma condicionante politicamente incorreta em se tratando de um seguidor do Messias: ver e tocar as chagas de seu Mestre antes de se convencer do milagre que lhe fora comunicado.

Os olhos, não se espantem, não se prestam somente para ver. Eles podem imaginar. Ou conceber.

O artista plástico e poeta russo Wassily Kandinsky, autor de telas admiráveis e exuberantes poemas, afirmou que uma tela em branco é uma maravilha viva… muito mais bela do que certas imagens. Nosso imobilismo mental certamente irá escorraçar tal idéia. É que nossos miolos foram treinados para digerir idéias encaixotadas na mesmice, quando não para permanecer eternamente no banho-maria das deduções tidas como lógicas.

Em 1967, uma banda inglesa de rock progressivo ainda desconhecida do público, abriu um concerto de Jimmy Hendrix com A Whiter Shade Of Pale. A música estourou nas paradas de sucesso. Foi então que o empresário dos rapazes, naquele gesto clássico de se mirar com os olhos um ponto imaginário, teve a visão dos profetas. Lembrou-se do nome do gato de um amigo. Bingo. Nascia o Procol Harum, que fez sucesso até meados de 1977.

Procol Harum é uma locução que vem do Latim e pode ser traduzida como “através dessas coisas”. Os olhos do empresário viram o gato que estava a quilômetros de distância. Um gato chamado Procol Harum.

Através dessas coisas, eu dizia, os olhos podem operar milagres intrigantes. Enxergar, distinguir, olhar. Os olhos podem intuir. Umberto Eco, filósofo, escritor, semiólogo e linguista italiano morto em 2016, escreveu um livro de ensaios chamado Obra Aberta. Uma das conclusões fundamentais do livro dá a seguinte pista: “toda obra de arte é aberta porque não comporta apenas uma interpretação”.

Da mesma forma que uma tela em branco pode ser uma maravilha viva que explode cores e imagens, um texto aparentemente ininteligível pode conter em suas linhas signos que até uma criança é capaz de decifrar.

Assim, não é pelo fato de um escrito não espargir doses de autoajuda, salamaleques confessionais, e, como não, temas emergentes, que ele deve ser rotulado como erudito, de difícil compreensão.

Ler com os olhos nem sempre é o melhor exercício. Clareza não é sinônimo de compreensão. James Joyce de uma clareza solar com seu incompreensível, ininteligível e obscuro Ulisses.

Através dessas coisas. Ou Procol Harum, como queira.

Bom dia!

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Milton Triano

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