Araras, 17 de novembro de 2017

“Em criança não nos despedimos dos lugares. Pensamos que voltamos sempre. Acreditamos que nunca é a última vez”. (Mia Couto)   Ultimamente ando com...
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“Em criança não nos despedimos dos lugares. Pensamos que voltamos sempre. Acreditamos que nunca é a última vez”. (Mia Couto)

 

Ultimamente ando com muita saudade de mim.

À primeira vista soa como um despropósito, quando não cabotinismo, alguém sentir saudade de si mesmo. O mundo determina padrões, portanto quem coloca o trem para correr sobre trilhos próprios, causa.

Não é todo dia que a gente pode ser livre. O refrão “vivemos no gozo de plena liberdade democrática” é conversa mole pra boi dormir.

Mas eu dizia que ultimamente ando com muita saudade de mim. A explicação mais razoável para tal sentimento é dada pela…poesia.

Não sei quem é o autor dos versos que o leitor menestrel e a trovadora leitora irão ler abaixo. A única informação que consegui é que ela integra a coletânea Cancioneiro da Saudade, editada em Portugal pelo professor Carlos Martins, lá pelos idos de 1920.

Falta de referências à parte, afianço-vos que tais versos entraram para sempre em meus quereres mais ou menos quando o doce pássaro da juventude começava a sobrevoar minha cabeça:

“Saudades…tenho saudades/ Do tempo em que não sabia/ Que esta palavra — Saudade,/ Infelizmente existia”.

Assim posta a questão, de se deduzir que as lembranças que agora instigam-me a mergulhar no passado, transportam-me aos intrigantes campos da meninice, quadra da vida que, admitamos, o ser humano não sabe que a palavra saudade existe.

Ultimamente ando com muita saudade de mim.

Rubem Alves escreveu que “a saudade é a nossa alma dizendo para onde ela quer voltar”. Rubem era um Bombril pensante, ou seja, um homem de mil e uma qualidades. Pastor, educador, professor, escritor, palestrante, proprietário de Café Bistrô.

No meu caso ele não acertou, pois minha alma não diz para onde ela quer voltar. Minha alma cigana nunca soube o que é um porto, nunca acenou para onde queria ir em meus momentos de saudade verdadeira.

Como minha saudade sempre foi peregrina e meu coração sempre foi andejo, a saudade que ultimamente tenho de mim é rival do meu próprio coração. Tem dias que acho que essa disputa é ruim, tem dias que ela sequer me incomoda.

“No fundo, no fundo,/ bem lá no fundo,/ a gente gostaria/ de ver nossos problemas/ resolvidos por decreto.

A partir desta data, aquela mágoa sem remédio/ é considerada nula/ e sobre ela — silêncio perpétuo.

Extinto por lei todo o remorso,/ maldito seja quem olhar pra trás,/ lá pra trás não há nada,/ e nada mais”.

Tem horas que a poesia de Paulo Leminski me apavora, tem horas que me consola; no geral, me coloca a salvo das inundações de idiotice que destempera o mundo.

Ultimamente ando com muita saudade de mim.

Em criança não nos despedimos dos lugares. Pensamos que voltamos sempre. Acreditamos que nunca é a última vez.

Eternidade é isso, crianças.

Bom dia!

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Milton Triano