Araras, 27 de junho de 2017

“Estou na idade em que trinta anos atrás é anteontem”. (Luis Fernando Verissimo)   Boi gordo e vaca magra, que São Francisco os livre...
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“Estou na idade em que trinta anos atrás é anteontem”. (Luis Fernando Verissimo)

 

Boi gordo e vaca magra, que São Francisco os livre dos carniceiros, acabam de ganhar uma sobrevida inesperada. Em um país cujos habitantes, quando não têm nada a festejar, fazem churrasco para comemorar a independência da Bolívia, a interrupção da sangria deu um alívio temporário aos pobres bichos.

Se meus parafusos cerebrais encontram-se mais ou menos azeitados — estou na idade em que trinta anos atrás é anteontem —, não é a primeira vez que os açougueiros estão em polvorosa.

Crianças, eu estava lá. E como estava lá, assim como o Repórter Esso sou testemunha ocular da história que vou contar. Aconteceu na segunda metade dos anos 1950.

As ondas do rádio modulavam praticamente o dia todo uma música inventada pelos americanos. Chamava-se rock’n’roll. De Little Richard a Carl Perkins, de Jerry Lee Lewis a Elvis Presley, de Chuck Berry a Bill Halley, haja ouvidos para tanto prazer.

No bem bom da malemolência interiorana, eis que senão quando, um boato alastrou-se como fogo em palha seca. Varreu o Brasil e aportou em nossa estupefação. Em todos os cantos o assunto era um só: o risco que o consumidor de carne de vaca estava correndo.

Abro um parêntese. Há 62 anos atrás não se comia carne de boi; independentemente do sexo do animal, comia-se carne de vaca. Donde se pode concluir que naqueles dias o machismo não era amador. Parêntese fechado.

“Estão alimentando o gado com torta de mamona e uréia, dando hormônio para engordar, aplicando muita vacina e antibióticos. É por isso que a carne de vaca causa impotência”.

Sejamos razoáveis: no atacado ninguém falava “impotência”, falava “broxura” mesmo. Portanto, o zunzum garantia que a ingestão de um prosaico bife de carne de vaca era suficiente para deixar o sujeito broxa. Excusez moi, madames.

Então aconteceu o previsível: a carne sumiu da mesa. Afinal, ninguém era louco a ponto de assumir a condição de absolutamente incapaz para a prática dos atos, digamos, horizontais da vida.

Um belo dia o assunto na rodinha formada pelo bando de garotos da bagunça girava em torno da terrível ameaça quando Nico Carrapato fez um aparte que acabou entrando nos anais daquela geração de abusados.

Sem qualquer cerimônia ele contou que havia conversado com sua mãe sobre o assunto. Fez questão de repetir o diálogo que tivera com ela.

“Mãe, eu não quero mais carne de vaca não”. “Por que, Nico?”, surpreendeu-se ela.

“Porque ó…”, respondeu Nico, ao mesmo tempo que, estendendo o braço direito, abaixou a mão direita fechada, materializando no ar aquele gesto universal que quer dizer “broxa”.

Em 1986, exatos 30 anos depois, o boi sumiu do pasto e a carne do prato. Briga do governo, que proibiu aumento do preço da carne, com os pecuaristas que, é claro, não aceitavam a imposição. Quase três meses sem comer carne deixou milhões de carnívoros à beira da internação. A síndrome de abstinência, dizem, faz a pessoa subir nas paredes.

Na ocasião um amigo ligou de madrugada. Delirava. “Arrumei quatro senhas, venha com a família. Mas não comente com ninguém, oquei?” Fomos. E voltamos com a sensação de ter participado de um filme de Jacques Tati.

A maldição contra o boi e a vaca retornou agora, 30 anos depois. Parece um daqueles contos de terror de Stephen King. Vade retro, Satanás. Cruz credo. Pé de pato mangalô três vezes. Sai de mim, Coisa Ruim.

Nos episódios que curiosamente se repetem a cada três décadas, quem fica no prejuízo é a nação. Como a nação é constituída por seus cidadãos, elementar, caro Watson. No fim das contas nós vamos pagar centavo por centavo essa conta.

O dicionário dos homens que comandam os países que dominam o mundo não trazem têm as palavras “misericórdia”, “humanismo”, “condescendência” e, principalmente, “amizade fraterna”. Vê lá!

Tem hora que me pergunto se essa gente que está vendendo nossa soberania a preço de banana não é a própria maldição encarnada num punhado de homens que são capazes de vender a mãe. E entregá-la antes do pagamento da primeira parcela. É ou não é o fim da picada, Nestor?

Bom dia!

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Milton Triano