Araras, 19 de novembro de 2017

“O acaso é o grande mestre de todas as coisas. A necessidade só vem depois, não tem a mesma pureza”. (Luis Buñuel)   Minha...
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“O acaso é o grande mestre de todas as coisas. A necessidade só vem depois, não tem a mesma pureza”. (Luis Buñuel)

 

Minha Declaração Particular dos Direitos Humanos acaba de sair do forno.

Foi muito fácil costurá-la. Bastou uma rápida conversa com meus botões para concluir que, diante daquilo que aí está, bem como de tudo mais que sobre nós desabará, o primeiro artigo do documento deveria ser assim redigido:

“A partir deste instante, use e abuse do escapismo como saída para a torpe realidade que vem abrindo as asas sobre você, ele, nós, vós, eles”.

Então aconteceu que hoje pela manhã, ao amarrar meus surrados sapatos, pensei que os humanos deveriam reconhecer de uma vez por toda a multidão de anônimos cuja criatividade facilitou as coisas para todo mundo.

Quem bolou o nó que damos nos cadarços dos sapatos, pensei com meus botões à medida em que amarrava minhas botinas, não há dúvida que foi um sujeito engenhoso.

Ora, um amarrio que se faz em poucos segundos com as duas mãos e se desfaz num vapt vupt com um dedo, só poderia ser coisa de gênio. Um gênio do qual ninguém tem sequer uma vaga lembrança, posto que inteiramente desconhecido.

Vamos a outro objeto cuja paternidade é completamente ignorada. Esse objeto chama-se botão.

O botão, dizem os historiadores, já era encontrado por volta de 3 mil anos a.C. Até aí morreu Neves, porque o nome do cidadão que o imaginou parece estar enterrado no Vale do Indo. Si non è vero è bene trovato.

A maldade humana — que o bom Deus dela jamais se apiede —, um dia comparou o botão àquele orifício do intestino grosso por onde saem as fezes. O inconveniente e fedegoso sarcasmo certamente não partiu de quem o inventou. Por outro lado, desconhece-se o nome do malicioso bandalho que descortinou tão escatológico paralelo.

O acaso, já dizia Luis Buñuel, é o grande mestre de todas as coisas. A necessidade só vem depois, não tem a mesma pureza. Pois só o acaso poderia explicar a criação do pente, outro objeto cuja invenção não é atribuída a ninguém, mesmo por que ninguém sabe quem o trouxe ao mundo.

Imaginem se o pente não tivesse sido inventado. O mundo, crianças, seria um monótono e agressivo desfile de gadelhas, enormes e antiestéticas gadelhas.

Perfume? Mais uma descoberta cuja autoria a História atribui “às antigas civilizações do Oriente Médio, principalmente o Egito”. A História, todo mundo sabe, é escrita por homens, e homens, ninguém o desconhece, contentam-se com superficialidades, digamos, que dão para o gasto.

Ou seja, no caso, e mais uma vez, o coletivo suposto sobrepôs-se ao individual certo, dado que ninguém sabe o nome do talentoso alquimista que livrou a humanidade de perecer sob sucessivos ataques de cheiro de bode mal castrado.

Portanto, agradeçamos aquele que nos livrou dos sovacos desbocados, do cecê, enfim, e como diz a rapaziada, da asa da moçada que não é chegada em um banho com água e sabão.

Por último, mas não menos importante, o anônimo artífice que fez a primeira bola não atinou com o bem que legaria à humanidade.

A bola é responsável pelo animus de milhões. No basquete, no vôlei, e, por todos os deuses do Olimpo, no futebol, esporte que faz a gente esquecer, ainda que só por improváveis noventa minutos, das mazelas que somos obrigados a engolir atualmente.

“O que finalmente eu mais sei sobre a moral e as obrigações do homem devo ao futebol”, confessou Albert Camus.

Sejamos razoáveis, esse bando de anônimos merece homenagem em praça pública. Proponho algo como Túmulo do Inventor Desconhecido. Por exemplo.

Se até soldado desconhecido tem um, não vejo por que o inventor desconhecido não ter o dele também.

Bom dia!

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Milton Triano