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Fonte: CPTEC/INPE
Atualizada em: 26/07/201009h12
Esqueça as turmas de garotos rolando pelo chão porque um olhou feio ou disse algum desaforo para outro. Apague da memória as brigas por conta do placar do futebol na hora do recreio e que se resolviam com o pessoal do "deixa disso". Quem briga da porta para fora ou para dentro das escolas agora, com embates cada vez mais violentos e que estão acabando na Polícia, são as meninas. Cada vez mais jovens, garotas que em geral cursam o ensino fundamental em escolas de várias partes da cidade – a grande maioria escolas públicas – estão protagonizando cenas dignas de um ringue de luta livre, que resultam em ferimentos, boletins de ocorrência e passagens pela Vara da Infância e Juventude do Fórum local.
Os relatos que fundamentam esta reportagem foram copiados de alguns dos muitos B.Os. que se acumulam na DDM (Delegacia de Defesa da Mulher), dentro da estrutura da Delegacia do Municípío. Apenas os nomes dos menores foram omitidos por questões legais, todo o restante das informações é verídico e mostra que o problema vem se agravando, interferindo até mesmo na rotina de algumas unidades de ensino, como já relatou a direção de pelo menos uma escola. (veja quadro nesta página).
Encaminhamentos à Justiça
As agressões praticadas pelos menores são consideradas na maioria dos casos "atos infracionais" e não crimes, cabendo como conseqüência as chamadas medidas sócio educativas que chegam, nos casos mais graves, à internação em instituições como a Fundação Casa. Mas isso é para quem pratica furtos seguidos, tráfico, assaltos e até homicídios. As garotas que andam se atracando nas escolas têm passado pela Polícia Civil e depois o delegado titular do município Sydney Sully Urbach encaminha os casos para a Vara da Infância e Juventude. O promotor Marco Antonio Gesualdi Xavier de Freitas, nos últimos dias desfrutando de uma licença, disse à Tribuna no começo do mês que vem ficando alarmado com a freqüência com que as meninas – e não mais os meninos – vêm protagonizando os confrontos físicos dentro e especialmente na porta das escolas. "Elas brigam por tudo e por nada. Por roupa, por sapato, por namorado, por amigas. Uma violência que assusta e que muitas vezes os pais não tratam com a devida seriedade, acham que vai ficar nisso mesmo e vai passar. Muitas vezes não passa, está causando sofrimento e pode evoluir para casos mais graves", pondera ele, referindo-se a comportamentos que lembram os casos de bullyng – agressões contínuas, físicas ou não, entre colegas de escola.
Mas o caso das meninas envolvidas em brigas se refere, na maioria das ocorrências, a ciúmes de garotos com os quais as meninas "ficam" ou namoram.
Escrivã de polícia com anos de experiência diária em contato com os menores e as famílias que chegam à DDM, Emília Nicomédio dá seu testemunho pessoal do que ela resume como insegurança e falta de valores que as garotas (os jovens em geral) vêm sofrendo. "O menino é o foco emocional da menina e é mais que isso, é a sua propriedade particular, seu objeto de uso exclusivo. Quando se sente ameaçada no campo emocional sem apoio da família, sem referência de autoridade, sem alguém para lhe aconselhar, copia o exemplo de comportamento que lhe é mais próximo: televisão", opina ela, referindo-se aos triângulos amorosos que aparecem nas novelas e filmes. "Com qual personagem se identifica mais? Com a garota boazinha que ama o menino e compreende a sua traição e o perdoa ou que vai ter a maior paciência com a menina que desaforadamente tenta lhe roubar o seu único afeto? Ou com aquela lutadora e guerreira, esperta, inteligente que vai à luta e vai fazer de tudo para aniquilar a sua rival (afinal de contas, a vida é curta e temos que aproveitar os momentos bons, não podemos de forma alguma deixar que qualquer aventureira leve o nosso bem mais precioso sem sentir a nossa fúria)? Resumindo: falta de valores morais e de estrutura emocional. Insegurança pura. Além de que tem que mostrar ao grupo quem é quem. Busca auto afirmação e respeito", acrescenta.
Entre as várias ações possíveis na escola, ela sugere "um programa de educação moral e desenvolvimento de laços afetivos duradouros entre os familiares e até mesmo na escola com os professores e funcionários, baseado no respeito mútuo, poderia ajudar muito", diz ela.
Na EE Maria Rosa, há pouco tempo começou a atuar o chamado "professor-mediador". Segundo a diretora da unidade, Cristiane Degáspari, informou recentemente à Tribuna, esse profissional atua basicamente dialogando com os alunos e suas famílias, visando administrar conflitos e solucionar divergências de modo a evitar ocorrências mais graves.
Outra diretora ouvida pela reportagem, mas que pediu para ter o nome preservado, desabafa. "Há muito a fazer, mas sem ajuda dos pais não há como a escola agir e conseguir resultados. Eles (os alunos) passam poucas horas aqui. É em casa que eles precisariam de apoio e continuidade do trabalho, das discussões sobre a vida e seus valores", diz ela, que atua numa escola da região leste da cidade e costuma enfrentar problemas de violência especialmente entre meninas – casos não relatados nesta matéria.
Meninas em guerra – elas são maioria absoluta nos casos de agressão entre alunos
"Motivos ignorados"
Escola Municipal de Ensino Fundamental Professora Adalgisa Perim Balestro Franzini, no Parque Dom Pedro, dia 21 de junho deste ano, por volta de 14h30. Uma garotinha de 13 anos foi para cima de outras duas, de 15 e 16. A briga, segundo o B.O. "por motivos ignorados", foi durante o recreio. A aluna mais nova, que investiu contra as colegas, acabou ferida pelas duas.
"Saiu com o meu namorado"
Jardim Nova Araras, perto da Igreja do Bom Jesus da Pirapora. 12 de maio, por volta de 17h. Saída da Escola Estadual Francisco Graziano. Uma garota de 14 anos é atacada por outra de 16, aluna da EE Professora Yolanda Salles Cabianca, que fica no vizinho Parque Industrial. Motivo: a garota da "Cabianca" estava com ciúmes de um garoto com quem a da "Graziano" teria saído. As meninas se machucaram no rosto e pescoço. A pedido do delegado Sydney Sully Urbach, a direção da "Cabianca" emitiu um relatório sobre a agressora que foi até o bairro vizinho brigar. Segundo o documento, a menina é agressiva, indisciplinada, "se opõe às regras da escola", está cursando a 8a série pela segunda vez e é uma "líder negativa" para os demais estudantes da unidade.
"Triângulo amoroso aos 12 anos"
A cena agora é na zona leste, José Ometto III. EE Professora Judith Ferrão Legaspe. Dia 13 de maio, por volta de 17h. Por ciúmes de um garoto, duas garotinhas de 12 anos saíram no braço, na saída da escola. Ambas terminaram com os rostos e pescoços feridos. Na delegacia, nesse e em outros casos, fichas com reprodução do corpo humano servem para que os escrivães anotem onde as crianças apresentavam lesões.
"Baleia" e "vagabunda"
Mesma escola e bairro. Dia 29 de abril, perto das 17h. Enfurecida porque um menino a chamava de "baleia", uma aluna de pouco mais de 12 anos agrediu um de 10. Ali perto, dois dias antes, na EE Dr. Maximiliano Barutto, no José Ometto I, uma jovem de 15 era chamada de "vagabunda" por outra de 17, que ameaçava matá-la. Foi parar com a mãe na delegacia para fazer o B.O.
"Vou acabar com você"
EE Professora Carlota Fernandes de Souza Rodini, Jardim Campestre. Dia 5 de maio. Uma professora de 48 anos ouviu de um aluno de um aluno de 17 que ele ia "pegá-la na saída" e "acabar com ela e seu carro". Tudo porque ele se comportou mal na classe e levou "um sermão", diante dos colegas.
"Agulha nas costas"
Jardim São João, zona norte. Dia 24 de março, 11h. Escola Municipal Thereza Colette Ometto. Dois meninos, um de 12 e outro de 14 anos, enfrentaram-se e um deles enfiou uma agulha de costura nas costas do outro. O médico da Unimed André Tognolli forneceu declaração sobre o objeto que perfurou o menor "sem sinais de infecção".
Internet está cheia de vídeos de brigas entre estudantes
Basta acessar o site Youtube, que hospeda vídeos do mundo inteiro, para assistir a cenas deploráveis de brigas entre adolescentes, muitas delas envolvendo meninas. Os confrontos são, na maioria, filmados com câmeras de telefones celulares. Duram poucos segundos ou minutos, têm baixa qualidade visual mas é perfeitamente possível enxergar os golpes, puxões e chutes que as meninas aplicam umas nas outras, em geral com muitos colegas em volta gritando e acirrando ainda mais os ânimos. Há vídeos em que os próprios jovens que colocam o material na internet chegam ao ponto de acrescentar aberturas como "Fulana versus Cicrana na escola tal". "Girls Fight", algo como luta de garotas, ou "Pancadaria entre meninas", "Fulana apanhando", entre outras menções.
As imagens que ilustram essa reportagem foram tiradas do site e não são de brigas em escolas de Araras. Há referência sobre confrontos entre estudantes locais em outras redes sociais como o Orkut.
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