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19/03/2010 11h10
Filhos e até netos criados, aposentadoria garantida, mais tempo na agenda e a chance de realizar sonhos da juventude. Homens e mulheres mostram que para quem gosta de desafios, a idade não atrapalha e até ajuda a vencê-los.
Fazer uma nova faculdade, aprender inglês, começar a cantar e a praticar uma atividade esportiva. Se a juventude é a melhor fase para essas conquistas, certamente não é a única época em que elas são perfeitamente possíveis. Até porque quando são jovens, muitas pessoas não têm ou não conseguem separar um tempo para essas e outras realizações. O tempo passa, os filhos crescem, a aposentadoria chega e, com ela, vem aquela vontade de preencher o tempo com novas experiências. Se o corpo tem alguma limitação, a sabedoria e a paciência desenvolvidas ao longo da vida compensam, com folga. E muita gente vai em frente, mostrando que a idade não é justificativa para abrir mão de velhos sonhos.
Aos 71 anos, a aposentada Jandira Rodrigues Martins resolveu, há quatro anos, virar cantora. Isso mesmo. O sonho de menina e o dom para a música haviam sido tolhidos por um casamento quando ela ainda era muito jovem. Filhos, afazeres diversos e, porque não dizer, falta de incentivo do falecido marido também contaram. “Ele não gostava que eu fizesse nada diferente. Acabei me resignando por respeito a ele, mas quando fiquei viúva, fui atrás do que eu gostava”, conta.
Desafiada pela radialista Maria Helena Pianca Salomão, a Mahesa, que há muitos anos mantém atividades culturais e musicais que envolvem dezenas de pessoas, Jandira resolveu soltar a voz. Não parou mais e hoje se apresenta em eventos no Calçadão, inclusive integrando os vocais de um grupo de Choro. “Gosto de cantar canções interpretadas pela Clara Nunes, Ângela Maria, Dalva de Oliveira... Mas estou ensaiando agora algumas músicas da Maria Rita e da Marisa Monte, por exemplo, que são mais modernas”, relata. “Adoro cantar”, garante Jandira, hoje já ao lado de um novo companheiro. “Acabamos nos conhecendo nos eventos musicais e ele me dá o maior incentivo”, comemora.
Mergulhando de cabeça
Desde menina, Heila Quenzer Zaniboni, hoje com 67 anos, sonhava nadar com as outras crianças. Toda vez que uma turminha caía na água ela até tentava, mas como não sabia natação, acabava tomando muitos sustos que a deixaram traumatizada.
Os afazeres de comerciante e o medo acabaram adiando o sonho de cair na piscina. Sonho retomado há um ano, após a aposentadoria. “Agora eu faço hidroginástica e natação. A hidroginástica é para vencer o medo da água. E a natação é o que eu quero realmente aprender. Pelo menos estou tentando”, garante ela, que freqüenta três vezes por semana a Academia Nadar, no Jardim Cândida. Heila se diz muito satisfeita com a decisão. “Estou gostando muito, sem contar que a maioria das minhas dores se foram, me sinto muito melhor e mais bem disposta”, conclui ela, que tem o apoio do marido, filhos e netos.
Aos 63 anos, José Bernardo Primo já se acostumou a ser visto como ‘moderno’, ‘ousado’. Ele que trabalhou por 35 anos como agente portuário começou a praticar corrida e karatê na maturidade e, há cerca de seis meses, resolveu realizar outro grande sonho que era o de aprender inglês. Matriculou-se no CCAA em Araras e não parou mais. “Eu queria aprender inglês porque precisava e preciso me comunicar melhor com os outros integrantes da associação de karatê à qual pertenço. São atletas de 15 estados brasileiros, mas também de outros 15 países”, explica, do alto de sua experiência de Faixa Preta 3o Dan.
Perfeccionista e esforçado, Primo diz que as dificuldades existem mas só reforçam sua disposição. “Tem gente que desanima. Eu não. Quando aparece uma dificuldade, aí é que eu insisto ainda mais”, conta ele, que voltou a estudar há alguns anos e cursa o ensino médio. “Vou fazer faculdade, pode acreditar”, anuncia.
As aulas de inglês acontecem uma vez por semana. “Quando eu vou viajar, dou um jeito de fazer a aula mesmo assim”, diz, enquanto se prepara para embarcar para um campeonato de karatê em Praia Grande, na baixada santista. “Tem vezes em que as competições são fora do Brasil. Já estive na argentina competindo”, orgulha-se. “E pensando em viajar para outros lugares eu não só vou aprender inglês como também espanhol e francês”, avisa.
O nome de Francisca Mendes Marques, a dona Chica, faz parte da vida de milhares de ararenses que em algum momento da vida estudantil, tiveram aulas com essa que talvez seja a mais ilustres das educadoras ainda em atividade no município.
Pois aos 80 anos, depois de décadas ensinando, não é que a veterana mestra resolveu voltar aos bancos escolares. E matriculou-se no curso de Direito da Unar, instituição onde ela própria atua na coordenação. Está no segundo semestre e garante: adorando. “As aulas são pela manhã e esse é um período do dia que eu dedico a mim mesma. Além disso, estou tendo aulas com professores maravilhosos. Alguns deles, inclusive, foram meus alunos. É maravilhoso aprender com eles e ver o quanto eles se tornaram profissionais competentes”, diz ela.
Dona Chica ainda destaca a importância prática do curso. “Estou conhecendo muito sobre legislação, o que é sempre muito útil para quem atua numa instituição de ensino’, completa.
Esses e outros exemplos de vida ativa – física e intelectualmente falando – na terceira idade reforçam o que especialistas em saúde já têm como consenso: manter-se engajado em atividades que exijam o corpo e a mente é uma atitude que pode ajudar a evitar sérias doenças, inclusive degenerativas como mal de Alzheimer ou mesmo depressão. Um dos personagens dessa matéria, o estudante de inglês aos 63 anos, resume bem o efeito de uma agenda produtiva na vida de quem quer cuidar da saúde física e mental: “Eu não tenho tempo de ficar doente nem triste”, diz José Bernardo Primo. Alguém duvida?
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