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Uma das casas invadidas pela água em Araras, em janeiro
Arquivo Secom

02/03/2010 05h00

Alagamentos e enchentes: quem está totalmente livre?

Ana Maria Devides
anadevides@tribunadopovo.com.br

Chuva como não se via há duas décadas. Intensa, com grandes volumes caindo em poucas horas – como aconteceu no dia 7 de janeiro em Araras. Nem tão intensa, mas persistente, duradoura, como a que se viu por vários dias em dezembro e janeiro. Novamente concentradas em pouco mais de uma hora e atingindo parte da cidade, como no último dia 22 de janeiro. É água, muita água, mais de 460 milímetros cúbicos, em pouco mais de 90 dias.

Os estragos registrados até agora, como os mais de 80 imóveis invadidos pela água na chuva histórica do começo do ano mostram que embora as áreas de várzea sejam efetivamente as mais passíveis de serem invadidas pela água, há por toda parte em Araras trechos onde a combinação entre desinformação e negligência individual com a falta de fiscalização e ação publica vem potencializando o perigo, e mesmo quem vive bem longe de rios e córregos, em bairros mais altos, acaba não estando a salvo de ter o imóvel invadido pela água.

No dia da chuva mais forte em Araras em 19 anos, 7 de janeiro de 2009, a casa do lubrificador de veículos Ananias Alves, no Parque das Árvores, ficou com água na altura das portas. O grande volume de água era enxurrada, que passou praticamente direto sobre uma boca de lobo em frente da casa de Alves e encontrou no imóvel um canal de vazão, já que a casa foi construída abaixo do nível da rua. O detalhe foi que a água, fluindo com força descomunal, derrubou uma parede inteira dos fundos da cozinha do lubrificador, que viu o patrimônio da família se perder totalmente. "Perdi tudo, desde a geladeira até o desodorante", lamentava-se ele no dia seguinte, quando tentava limpar a casa para recomeçar a vida.

Construir abaixo do nível da rua sempre foi uma atitude desaconselhada por engenheiros e arquitetos, mas a solução acaba adotada por muita gente, ou por falta de recursos para elevar o nível do terreno com aterros que custam dinheiro, ou simplesmente porque há casas que foram construídas antes da chegada da infra-estrutura urbana e quem foi chegando primeiro foi tratando de criar seu espaço, vendo depois que e as galerias pluviais acabaram ficando acima do nível do imóvel.

Depois que o prédio está pronto e ocupado, não é fácil corrigir esse defeito. Para "levantar" o imóvel, quase sempre é possível mexer também com a cobertura, o que torna a reforma inviável para a maioria. Surge outra alternativa para tentar remediar a situação, que é a construção de muretas de contenção que, assim mesmo, só devem ser feitas com orientação especializada, ensina o arquiteto Felipe Dezoti Beloto, secretário municipal de Planejamento, Gestão e Mobilidade. "As muretas, quando bem projetadas, atendem às necessidades quanto à invasão de águas, porém, as mesmas podem impedir ou obstruir o acesso ao imóvel, portanto, não é a solução mais adequada. O ideal é que o imóvel seja construído alteado em relação ao nível da rua, principalmente quando localizado próximo a rios e córregos", ensina o profissional.

Beloto lembra que até 1984 a aprovação de loteamentos em Araras era omissa em relação a riscos evidentes para quem construía sem critério. "Nos loteamentos aprovados após 1984 tem os mesmos parâmetros das leis que regem o "Plano Diretor" conforme conta hoje da Lei Complementar nº 3.902/2006", diz ele. Desde 1984 ficou definido por lei então que "Somente será admitido o parcelamento do solo para fins urbanos em zona urbana ou de expansão urbana. Não será permitido o parcelamento do solo em terrenos alagadiços e sujeitos a inundação, sem que sejam previamente aterrados ou executadas as obras de drenagem necessárias para rebaixar o lençol freático a, pelo menos, um metro abaixo da superfície do solo".

Segundo Beloto, não se pensava muito no risco de enchentes na cidade naquela época. "Eram pouquíssimos pontos de alagamento, um que eu me lembro era na avenida Zurita, cruzamento com a Padre Atílio", recorda-se.

A falta de uma legislação clara e o improviso nas construções deu origem a as regiões muito vulneráveis como a Vila Borela, muito próxima do Ribeirão das Furnas e, por anos, sob o risco de invasão por águas que vinham do Centro e do próprio ribeirão, poucos metros abaixo e praticamente no mesmo nível das casas. Ruas estreitas e grande adensamento imobiliário potencializam os problemas, sendo que apenas em 1997 a região acabou recebendo uma intervenção pública mais significativa, com reforço de galerias pluviais.

Concreto demais, segurança de menos

Outra conduta prejudicial e adotada pela maioria das pessoas que constroem ou reformam casas e imóveis comerciais é a preferência pela impermeabilização total das áreas não construídas. Quintais concretados e revestidos com piso cerâmico dominam a paisagem urbana, em detrimento de gramados, jardins ou áreas de terra. Sem contar a pavimentação das ruas, que só aumentou, especialmente a partir da década de 50. A conseqüência é óbvia. A água não infiltra no solo e percorre a superfície com força cada vez maios, em busca de vazão. A enxurrada vai arrancando o asfalto, atualmente em estado precário e passando por alguns trabalhos de recapeamento. "Uma parte da quantidade de chuva penetra no solo, quanto mais área permeável o imóvel apresentar maior é a absorção, com maior absorção menor a quantidade de água que se direciona a rua e conseqüentemente aos rios. Ou seja, quanto mais área permeável melhor", diz Beloto.

As partes mais baixas dos bairros são as que mais sofrem, porque recebem grande volume de água de bairros mais altos. Ultimamente vem sendo assustador o volume de água que desce, por exemplo, pelas ruas de bairros como o Luíza Maria, Center Martini e Jardim Itália. Longe dali, na zona sul de Araras, trechos da Vila Dona Rosa Padula Zurita também sofrem, tanto pela enxurrada que se avoluma quanto pela sujeira despejada em ruas e até bueiros, dificultando a drenagem.

A dona-de-casa Natalina Lino, moradora da Vila Dona Rosa, conta que em dias de chuva forte não é raro ela e o marido terem de sair debaixo do temporal para, com vassouras e pás, retirar lixo que desce com a enxurrada para o bueiro próximo de sua casa, na tentativa de evitar que a água entre pela garagem e até pela sala. "Já teve dias em que a gente ia tirando lixo e vinha descendo mais e mais. Ficamos debaixo da chuva porque se a gente não varresse tudo que vinha, a água ia invadir a casa", relembra. "As pessoas não têm consciência", diz a moradora. Há pontos onde esse problema se repete em bairros como o Parque Tiradentes, na zona leste, o Jardim Alvorada na zona norte, e mesmo áreas próximas ao Centro.

Pelas mesmas razões – impermeabilização excessiva e negligência com o lixo – a imprensa mostrou recentemente que em São Paulo, nem mesmo bairros nobres como Perdizes por exemplo, vêm escapando de terem casas e lojas invadidas pela água, como aconteceu em meados deste mês. O que equivale a dizer que em cidades menores, com o passar do tempo, nem mesmo bairros tidos como ‘seguros’ estão totalmente a salvo.

Perigo que vem do telhado

Um bom sistema de calhas e rufos é aliado da segurança dos imóveis em dias de muita chuva. Mas os dispositivos têm de ser instalados com critério, como também lembra o secretário Beloto. O calheiro deve ter noção do volume de água captado pelo telhado, ou seja, a quantidade de chuva pela área do telhado dará o volume captado pelo mesmo. Com esse volume calcula-se a seção da calha e a quantidade de condutores para conduzir a água até a rua (sarjeta). Pelo Código Sanitário Estadual, não é permitido dirigir a água de chuva sobre o passeio público, sempre direcionar sob a calçada e levá-la à sarjeta. Quanto aos rufos, os mesmo são colocados com critério para impedir que águas de chuva penetrem no interior dos imóveis, quer no forro ou em cômodos, evitando-se, assim, surgimento de umidade", diz o arquiteto.

Vale lembrar que de nada adianta um bom sistema de calhas e rufos obstruído pela sujeira. É preciso organizar uma rotina de limpeza que garanta a remoção de folhas de árvores e até mesmo restos de animais mortos. Senão, ao invés de racionalizar o fluxo da água, as calhas obstruídas tornam-se um risco a mais para a casa, especialmente em dias de temporal.

Risco que mora ao lado

Responsável pela Defesa Civil de Araras, Alex Rogério Zaniboni tem visto de tudo um pouco em termos de problemas em imóveis, especialmente os mais antigos em vários bairros. Ele afirma que outro ponto ao qual muita gente não dá importância, mas que costuma render muitos transtornos refere-se às condições de declive do terreno e a contribuição de água dos vizinhos. "Muitas pessoas nem se tocam, mas elas constróem ao lado de um terreno murado por exemplo. E esse terreno murado, nos fundos por exemplo, é mais alto do que o delas. Quando chove a água fica represada acima do nível da casa construída ao lado e começa a verter, comprometendo a estrutura ou até mesmo arrebentando e inundando a casa vizinha", conta ele.

Na dúvida é sempre um especialista quem deve dar a palavra final. A consulta a um engenheiro pode resultar em muita economia no final das contas. Só um profissional credenciado é que pode também fornecer laudos que permitam avaliar corretamente os problemas e apontar as soluções mais adequadas para cada imóvel.

Dicas para uma construção mais segura

-Na hora de comprar um terreno, leve junto um engenheiro para avaliar a área e analisar condições topográficas

-Não construa sem planta. Há projetos econômicos e profissionais voltados aos segmentos mais populares.

-Não contrate mão-de-obra sem comprovação de capacidade técnica. Nem tente fazer você mesmo sistemas dos quais dependerá a segurança da casa, tais como fundações, sistemas hidráulicos, etc...

-Jamais construa abaixo do nível da rua. Providencie aterros se necessário. Economizar nessa etapa da obra é criar problemas que custarão bem mais caro no futuro.

-Deixe um pedaço de quintal sem impermeabilização. Plante grama, faça um pequeno jardim. Esse detalhe trará muito mais comodidade à casa em dias de chuva forte, pois a água terá por onde se infiltrar na terra.

-Não improvise sistemas de condução de água sem critério. Instale calhas sob orientação profissional, com capacidade adequada à área de telhado do imóvel.

-Nunca conecte as calhas à rede de esgoto. Além de proibido por lei, esse procedimento coloca em risco a rede que serve a cidade.

-Não jogue lixo e entulho em bueiros. E denuncie ao 156 da Prefeitura quem você vir cometendo essa infração.

-Não coloque entulho na rua fora das datas estipuladas para coleta. Pode chover e a enxurrada levará tudo para dentro dos bueiros, o que provavelmente vai fazer com que a água e a sujeira voltem para as casas próximas.


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