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Carlos Sanches com pacientes atendidos na selva amazônica
Arquivo pessoal

30/01/2010 05h00

Médico de Araras participa de expedição no Amazonas

Renata Meneghin
renata@tribunadopovo.com.br
Todo ano, eles deixam o consultório de lado por alguns dias e partem para uma viagem inusitada em plena floresta amazônica. Voluntários, os médicos que participam da ONG Expedicionários da Saúde trocam o conforto da cidade para atender à população indígena que vive em aldeias, onde o acesso só é possível por meio de longas viagens de barcos.
    A última aconteceu em novembro do ano passado e reuniu cerca de 40 profissionais entre médicos, enfermeiros e especialistas em logística, da região de São Paulo e Campinas, que foram para a região de Parintins – conhecida principalmente pela tradição das festas do boi bumbá.
Entre eles, pela primeira vez, estava o cirurgião pediátrico Carlos Renato Della Torre Sanches, que trabalha em Araras desde 1994. “É uma experiência e tanto. O contato com uma cultura diferente, com costumes diferentes, faz você mudar a forma de encarar muitas coisas na sua vida”, resume.
O trabalho exige muita dedicação e amor.
A equipe ficou alojada em uma escola agrícola localizada em um dos pólos-base da floresta, que abriga também um posto de saúde e setores administrativos da Funai (Fundação Nacional do Índio).
A cidade mais próxima, no caso Parintins, fica a mais de 3h de barco do local – na época da seca, a viagem se torna ainda mais longa. É nesse município que, durante todo o resto do ano, também ficam os médicos mais próximos da aldeia.
Na escola, também foi montado um centro cirúrgico com equipamentos de ponta, geradores e até mesmo ar condicionado. “Era uma estrutura de primeiro mundo em plena selva amazônica. Não deixava nada a desejar em relação aos hospitais tradicionais”, comenta Sanches.
Os pacientes pertenciam principalmente à etnia Sateré-mawé (Sateré quer dizer lagarta de fogo, referência ao clã mais importante dentre os que compõem essa sociedade e que indica tradicionalmente a linha sucessória dos chefes políticos; e Mawé quer significa papagaio inteligente e curioso e não é designação clânica. Em virtude de coletarem os frutos e produzirem ‘bastões’ de extrato de guaraná, são conhecidos como Guardiões do Guaraná – planta que é encontrada e consumida em grande escala no local, e também faz parte de rituais específicos na tribo).
A maioria dos índios não fala português e precisou de intérpretes locais para se comunicar com os voluntários.

Atendimentos
    As expedições existem desde 2003 e foram se modernizando com o passar do tempo. Alguns meses antes da chegada dos profissionais, uma equipe vai até o local para fazer reuniões com autoridades sanitárias e agentes de saúde da comunidade, e também a triagem inicial dos pacientes.
    Depois entra em cena uma outra equipe – dessa vez de logística - que é responsável por toda a estrutura necessária para os atendimentos, cirurgias e alojamento dos profissionais. O serviço de montagem começa cerca de uma semana antes da chegada propriamente dita dos médicos.
“A lista original dessa expedição incluía mais de 1,3 mil pacientes e nós fomos preparados também para realizar 340 cirurgias. Mas nem todo mundo apareceu para a consulta. Há muita dificuldade para locomoção nos rios, problemas com pessoas da região que prometem combustível para as famílias e não cumprem, e por aí vai”, explica Sanches.
Foram nove dias de atendimento na selva, das 8h até praticamente 20h. Nos consultórios e salas de operação improvisadas, sete cirurgiões, dois ginecologistas, um médico da família, um pediatra, seis oftalmologistas, um ortopedista, cinco anestesistas, cinco enfermeiros e dois dentistas se revezavam para atender à comunidade.
“O objetivo da ONG é fazer intervenções para resolver problemas que eles não teriam condições de solucionar de outra forma, curando-os para que não fiquem sequelas”, explica o médico.
Entre os casos mais comuns estão problemas como catarata, pequenos cistos e tumores na pele e também hérnias inguinal, umbilical e epigástrica – algumas provocadas por excesso de esforço físico.
“Os índios são muito práticos e dependem muito do trabalho braçal. Quem tem hérnia, por exemplo, não consegue mais carregar peso e isso, para eles, é um grande problema. Eles passam a se sentir inúteis”, analisa.

Renovação
Durante a estadia na selva, nem mesmo dificuldades como a presença constante de insetos e animais como cobras, a falta de comunicação fora da aldeia – havia só um rádio amador em funcionamento – e a temperatura superior a 40 graus desanimaram os voluntários.
“Uma expedição como essa faz muita diferença para a população amazônica, mas também faz muito bem para a gente. Você tem consciência de que pode ajudar essas pessoas a se sentirem melhor de alguma forma. Não fui para fazer turismo, nem passear. Trabalhamos muito, durante várias horas seguidas, e no fim de tudo o sentimento era de paz. Consegui resgatar a alegria de estar vivo e voltei para Araras renovado”, desabafa Sanches, que já tem planos de retornar à selva amazônica, para novas expedições, possivelmente ainda esse ano.

Trabalho será tema de Globo Repórter
    Toda a ação dos voluntários que fazem parte da ONG Expedicionários da Saúde vai ser tema de um Globo Repórter especial, que ainda não tem data para ser exibido pela TV Globo.
    Uma equipe da emissora acompanhou a viagem dos médicos e demais profissionais da equipe, em novembro do ano passado, registrando os melhores momentos, as dificuldades e as alegrias vividas na selva amazônica.
    A ONG sobrevive de doações e do trabalho de voluntários que dedicam parte do seu tempo para atender pacientes que precisam de cuidados e vivem praticamente isolados.
Todo o material utilizado nos procedimentos é doado e nenhum profissional recebe pelo trabalho realizado. Mais informações sobre a ONG podem ser obtidas pelo site www.expedicionariosdasaude

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